sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 6

Eu matei uma assassina - Parte 4
Destravei a porta do meu apartamento, abri-a, entrei e Isabela entrou logo depois de mim. Fechei a porta, travei-a e...
- Deixa eu lavar esse rosto. Deve estar uma beleza com a choradeira - disse ela.
- Pode ir. A essa altura, eu acho que não preciso mais mostrar onde fica o banheiro - respondi quase rindo.
Deixei o violão em cima do sofá da sala e fui para a cozinha. Achei que ela fosse querer comer alguma coisa. É engraçado como chorar dá fome. Pelo menos comigo é assim. Coloquei um bocado de água para esquentar no fogão, peguei um pacote de macarrão, uns tomates, orégano, manjericão e comecei a minha brincadeira na cozinha. Nunca imaginei que cozinhar pudesse ser divertido, até quando comecei a aprender. Enquanto a água esquentava, pus a mesa cuidadosamente - como de costume - , piquei os tomates e deixei separados com o orégano e o manjericão. "Está faltando alguma coisa..." Abri um dos armários da cozinha e comecei a procurar o que colocar junto com os outros ingredientes. "Nah... Acho que assim tá bom. Cadê essa menina?"
Enquanto imaginava o que poderíamos fazer para passar o tempo até domingo à tardinha - "aquele verme me paga pelo que fez com o Bruno e com essa menina" - e o que Isabela estaria fazendo para demorar tanto a aparecer, continuei cozinhando. O macarrão ficou pronto e fiquei pensando, ao mesmo tempo, que deveria estar gostoso e que eu poderia ter colocado mais alguma coisa entre os ingredientes. Servi um prato para Isabela, outro para mim e disse:
- Está na mesa, menina. Vem comer.
- Estou indo.
"Onde ela está? No meu quarto? E fazendo o quê lá?" Terminei de servir os pratos e fui para a cozinha para deixar a panela. Quase tomei um susto quando voltei para a sala e vi que Isabela já estava lá. "Como não a ouvi voltar? Estava usando botas de salto!" Claro... Estava descalça agora.
- Você fez jantar para dois? Que amor! - ela disse sorrindo.
- Isso é mais ou menos o que eu disse ontem, não é?
- Eu sei. Foi de propósito - ela disse com um sorriso tranquilo.
- Quer tomar daquele vinho que abriu ontem?
- Quero.
Fui para a cozinha de novo pegar um cálice e a garrafa de vinho para ela. De dentro do armário, além do cálice, tirei um copo de vidro e de dentro da geladeira, além do vinho, tirei uma Coca-Cola. "Que vergonha! Ela tomando um vinho caríssimo e eu, um refrigerante de R$ 2,50 a garrafa de DOIS LITROS! Que absurdo!" Fechei a geladeira e voltei para a sala com a cara mais vermelha do mundo.
- Eu não acredito... Você me serve um vinho caríssimo e vai tomar um refrigerante de R$ 2,50 por uma garrafa de DOIS LITROS?!
"Que droga..."
- Que coincidência! Acabei de pensar a mesma coisa com as exatas mesmas palavras.
Enquanto eu falava e punha as coisas em cima da mesa, Isabela saiu em direção a cozinha, rápida, e voltou com outro cálice.
- Você vai me acompanhar no vinho também, não vai? - disse colocando o cálice à frente do meu prato e mostrando um sorriso doce.
- Ah... É que...
- Eu sei que você não bebe, mas eu tenho certeza de que uma vez só não vai causar trauma nem fazer mal. Por favor...
- Tá bom - peguei o copo e a garrafa de refrigerante e levei de volta para a cozinha. Voltei para a sala, sentei-me, servi um cálice para cada um de nós e começamos a comer.
- Ainda bem que fez esse macarrão. Não posso chorar, que morro de fome.
- Imaginei... Também sou assim. Não sei como funciona para a maioria das pessoas, mas eu morro de fome depois que choro.
- Por falar nisso... Esse macarrão ficou ótimo. Qual é o segredo?
- Não sei... Macarrão, tomate fresco, orégano, manjericão...
- E nada de molho. Adorei!
- Que bom! É ótimo saber que uma diversão minha agrada outras pessoas também.
- Então gosta de cozinhar?
- Adoro. Sempre adorei. Mesmo antes de aprender.
- Como assim "mesmo antes de aprender"?
- Bom... Sempre gostei de comer. E sempre quis aprender a cozinhar. Desde garoto. Um dia fiz uma promessa: aprenderia a cozinhar antes de me casar e, depois de casado, seria eu a comandar a cozinha, e não a minha esposa.
- Então, a julgar por esse macarrão aqui, sua esposa vai ser uma mulher muito feliz - ela disse sorrindo.
- Assim espero. - respondi retribuindo o sorriso.
- E vai ter de fazer muito exercício físico, pelo jeito - ela disse com um risinho.
- Isso não vai ser problema, eu acho. Sou muito elétrico. Vou acabar levando a minha esposa pra essa onda de exercício físico.
- Que bom!
Parei por um momento e observei-a enquanto ela comia. Sorri, sem que ela visse, e tornei a comer. Eu tinha tomado pouco mais de dois dedos do cálice que servi para mim. Ela notou e...
- E o vinho? Que achou?
- Por incrível que pareça, gostei dele. É docinho.
- Por que não bebe?
- Não gosto do gosto do álcool. Pra não dizer também que não sou muito resistente a ele.
- Mas não é tão fraquinho que se altere com um cálice de vinho, é?
- Bom... A última vez em que tomei vinho já faz uns dez anos e eu virei um filósofo apaixonado com meio cálice.
Ela riu quase descontroladamente. "Que risada gostosa!"
- Um filósofo apaixonado, Dé?
- É... Falava coisas que não faziam muito sentido e dizia amar alguém uma vez a cada dois minutos. Foi uma piada.
- Eu queria ter visto isso.
- Aliás... Desconfio de que seja o mesmo vinho. O gosto me parece o mesmo.
Ela parou. Olhou-me durante alguns segundos com uma cara que não sabia se queria rir ou achar aquilo muito estranho.
- Que foi?
- Se foi o mesmo vinho...
- O quê?
- Vamos! Termine esse cálice! Eu quero ver o filósofo apaixonado!
- Ah, sei... Quer que eu termine o vinho e fique embriagado para ver o filósofo apaixonado?
- Ahn... E por que outro motivo eu quereria que você terminasse o vinho? Pra te levar pra cama comigo?
Embora me parecesse previsível essa resposta, fiquei surpreso com ela. Tentei não mostrar que tinha ficado um bocado desconsertado.
- Talvez para não desperdiçar um vinho caro - "eu podia ter umas respostas um pouco melhores. Eu me rendo!"
A essa altura eu já tinha terminado o meu prato. Ainda tinha mais da metade do cálice de vinho. Peguei-o, suspendi à altura do meu rosto e...
- Bem... Depois não reclame do resultado final - disse tentando parecer sério, mas não pude conter o sorriso. Uma boa golada do vinho e devolvi o cálice à mesa.
- Essa é boa... Filósofo apaixonado...
- Você, pelo visto, é uma apreciadora de vinhos, não é?
- Ah... Eu fiz um curso uns dois ou três anos atrás. Mais por achar que é uma coisa fina que por gosto real pelo vinho. Aprendi a gostar durante o curso.
- Interessante - tomei mais um gole e o cálice estava quase no fim.
- E você tinha tempo para fazer curso de qualquer coisa que fosse mesmo sendo modelo?
- Ah, eu tinha. Achava ótimo. A carreira de modelo costuma tomar muito tempo das pessoas, mas a minha não foi bem assim. Fiz esse curso, um de decoração, um de tiro...
- Imaginei que tivesse feito o de tiro. Não conheço muitas pessoas que empunham uma arma como você - e adeus ao último gole de vinho. "Eu quero ver quando essa coisa começar a fazer efeito... Qualquer que seja a impressão que ela tenha de mim vou acabar pondo abaixo."
Ela terminou de comer, juntou os talheres, tomou o seu último gole de vinho e eu recolhi a louça. Deixei tudo dentro da pia e voltei para a sala. Ela estava na varanda, debruçada no parapeito. Fui até lá e fiquei ao lado dela.
- Como é que aquele verme sabe o bastante pra advertir uma pessoa que contratou pra me matar e não sabe onde eu moro?
- Não sei... Não faço ideia, na verdade.
- Chega a ser engraçado saber que ele não sabe onde eu moro e saber que moramos no mesmo país, no mesmo estado, na mesma cidade, na mesma quadra...
- Eu também acho. Talvez seja só uma questão de tempo até ele descobrir.
- Ah... Eu... - "Ooopa... Cadê as palavras quando preciso delas? Será o vinho? Já?"
- Você...?
- Eu duvido - "Ufa!" - . Se ele não me achou até agora e mandou alguém me achar e acabar comigo, eu acho que... ele não me acha mais.
- Dé... Você tá falando engraçado.
- Que droga... Eu te avisei sobre o vinho, não avisei?
- Hihihi... - ela riu docemente. - Avisou.
- Vem cá - encostei as costas no parapeitoe a puxei para minha frente. Abracei-a e encostei sua cabeça no meu ombro.
- O seu abraço é tão gostoso... Sabia disso?
- Sabe... Eu estou começando a me convencer disso. Não é a primeira vez que você vem parar nele.
- Eu acho que vou deitar um instante. Minha cabeça está doendo um pouco.
- Vai lá. Eu vou ficar aqui um pouco. Ver se passa o efeito do vinho.
- Sei... Não passa rápido assim, viu?
- Ah, passa. Comigo passa. Daqui umas duas horas eu estou novo.
- Tá bom.
Ela entrou. Não vi para que quarto ela foi, mas não duvido que tenha sido o meu. Fui para a sala, tirei o violão de dentro da bolsa, sentei no chão da varanda e comecei a tocar. Improvisei qualquer coisa durante um bom tempo, enquanto olhava para o céu. E que lindo estava ele. Limpo, uns poucos floquinhos de nuvens, uma lua cheia, enorme e branca... Fazia pequenas pausas na música para olhar para o céu e depois tornava a tocar. Passei mais de uma hora nesse ritmo de música e pausas até resolver levantar. Levantei-me, coloquei o violão em cima da bolsa e... "Que barulho foi esse?" Abri o bolso pequeno da bolsa do violão e tirei a pistola de Isabela de dentro. "Acho melhor esconder isso. Ela pode se lembrar de onde eu guardei e querer usar." Hesitei um pouco... "Nah... Duvido! Mas... Espera um pouco..."
Voltei para a varanda com a pistola na mão e debrucei-me no parapeito. Comecei a analisar a pistola. Não tinha marca, não tinha nenhum código que indicasse modelo nem local de fabricação... Nada. Parecia ter sido feita sob encomenda. E perfeita. Toda em aço escovado, cabo com placas emborrachadas, acabamento perfeito... "Melhor eu guardar isso. Não sei se ela vai gostar de me ver com essa pistola na mão."
Antes mesmo que eu pudesse me desencostar do parapeito, senti dois braços me envolvendo lentamente - um pelo peito e outro pela cintura - e Isabela me falou ao pé do ouvido com uma voz suave e preguiçosa:
- Que é que você está fazendo com isso aí nas mãos?
- Eu... - embora tivesse começado um risinho com a pergunta da moça, demorei a achar uma resposta. "Acho que o vinho ainda está fazendo efeito..." - Não sei direito... Dando uma olhada... - quase não consegui responder. O vinho e um par de lábios quentes e úmidos passeando pelo meu pescoço atrapalharam o meu raciocínio.
- Você continua falando engraçadinho.
- Eu... Eu... Acho que ainda... - "Como pode uma coisa simples como um beijo cortar a linha de racioncínio de uma frase tão curta?!"
- Ainda...?
- Acho que ainda é o... - "Não sei se me rendo aos beijos ou se..."
- O...?
- Vinho...
- Vem cá - ela me puxou para dentro do apartamento. Tirou a pistola das minhas mãos, largou-a junto do meu violão e, quando dei por conta, tinha sido jogado na minha cama.
- Ei... Não é querendo... - "Por que não consigo falar quando estou sendo beijado no pescoço?" - ... interromper, mas não acha... meio...
- Meio clichê? - ela parou e olhou-me fundo nos olhos com um sorriso maravilhoso. - Primeiro tento te matar, depois jantar com vinho, violão e agora isso? - E enquanto falava, tirou minha camiseta.
- É... - "Ainda bem que ela completou... Com vinho e tantos beijos eu não teria conseguido falar tão cedo."
- Eu acharia, se fosse você a me trazer pro seu quarto - ela disse enquanto amarrava as minhas mãos à cabeceira da cama com uma gravata. - Mas bem do jeito que está sendo... Não sei se é tão clichê assim.
As palavras saíram entre beijos que me atacavam no pescoço, nas orelhas e na boca. "Meu Deus do céu... Morri e não me avisaram?" Não pude conter uma respiração ofegante.
- Vai ter muito que ofegar ainda, menino. A noite vai ser longa...

domingo, 29 de março de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 5

Eu matei uma assassina - Parte 3
"Quatro e trinta e oito da manhâ. Que diabos! Por que eu fui acordar antes do despertador? Eu não devo ter dormido como deveria. É a única explicação." Saí da cama direto para ver o resto da casa. Dois pratos sujinhos em cima da mesa, dois cálices de vinho: um cheio e outro pela metade. Quem visse isso poderia muito bem pensar numa festinha a dois. Apesar de eu não ter bebido nada, tive alguma dificuldade para lembrar que foi a Isabela quem esteve aqui ontem à noite. E disse que ia me matar. Aquela menina doida...
Como ainda era muito cedo e eu só precisava estar no colégio às sete horas, comecei a arrumar a casa. Levei os cálices e os pratos para a cozinha, pus tudo em cima da bancada e... Que droga... Isso é um vinho caro, ela abriu, não tomou o cálice todo e eu não bebo. Que faço com isso? Espero que ninguém descubra que eu joguei tudo no ralo da pia. Lavei a louça sem a menor pressa para depois colocar as coisas todas no lugar pelo resto da casa.
Terminei de lavar a louça do dia anterior e fui para a sala arrumar os CD's, guardar o violão e procurar mais alguma coisa para arrumar pela casa. Como não tinha mais nada - graças a Deus! - , danei-me a pensar no que faria do "resto" do dia de hoje até domingo. Ah, domingo... Aquele verme maldito ainda vai me pagar pelo que fez com o Bruno e com a Isabela. Bruno não podia ser morto. E Isabela nada tem a ver com nada no meio daquele monte de ratos nojentos. É uma modelo, uma menininha. Não pode se meter a assassina de aluguel. Não pode. Eu não posso deixar.
Sentei-me no sofá, peguei de novo o violão e comecei a improvissar qualquer coisa. "Que maravilha! Meu ingresso pro forró na semana que vem está garantido com open bar! Hehehe... Pra que open bar? Eu não bebo! Pelo menos água, suco e refrigerante - fora a entrada - são de graça na quinta. E dança! Vai ser ótimo! A menos, é claro, que aquela lourinha maluca apareça de novo e, desta vez, realmente decidida a me matar. Mas eu duvido muito. Acho que não aparece mais. Ou será que aparece?"
Fiquei pensando nessas coisas todas durante quase uma hora e meia. Ao ver que já passava das seis da manhã, resolvi tomar café da manhã, juntar as minhas coisas e ir para o colégio. As sextas eram sempre divertidas. Os alunos de saco cheio, loucos pelo fim de semana... Vai ser engraçado. "Eita! Tiago não vai me deixar em paz! Que é que eu digo praquele sujeito? Nhargh! Que susto! Quem diabos liga pra outra pessoa às seis e quinze da manhã?"
- Alô? - nada. Ninguém dizia nada do outro lado da linha. - Alô? Alô!
Desliguei o telefone, tomei um copo de suco, peguei um pacote de biscoito recheado, vesti a camiseta do colégio, calcei um par de tênis, peguei a mochila e saí. Desci os três andares de escada até o térreo - dessa vez vou com o verdão - , peguei o meu carro e saí rápido para o colégio. Cheguei em dez minutos - confesso que fui muito rápido de casa para o colégio. Geralmente levo o dobro do tempo. Estacionei na primeira vaga que me apareceu, saí do
carro e fui para a sala dos professores esperar o sinal para o começo da primeira aula. Daí mais dez minutos eu ouvi uma voz vindo forte pelo corredor.
- Cadê ele? Cadê o André? Aquele carrão verde é dele! Cadê?
- Estou aqui, Tiago.
Tiago pôs a cabeça para dentro da sala dos professores e...
- Safadão! Seu sem vergonha! - ele disse com um sorriso do tamanho do mundo. - Pegou a modelo, né, garanhão?
- Que é isso, rapaz! Até parece que eu sou esse garanhão que vo...
- É, seu safado! Esqueceu os amigos na boate e ficou a noite toda com a modelo, não é? Conta aí! Como foi tudo? Eu quero detalhes!
- Acho que você não quer ouvir - eu disse com um sorriso de quem tem a melhor das piadas na manga.
- Hmmm... Quer ficar com a históra só pra você, né? Sei como é isso... Sei como é isso... - ele respondeu, zombeteiro.
- Não. É porque não aconteceu nada, de fato.
- Como assim?! - o espanto dele foi tão grande que a Rosa, que passava pela sala, até parou para escutar a conversa.
- Bom... Um beijo. Dois.
- Ah, André!
- Que foi, meninos? - a Rosa entrou na sala já perguntando.
- Ô, Rosinha, é que o Tiago não se conforma com o fato de eu não ter ido ontem ao forró com ele mais os meninos.
- E por que você não foi, Dezito?
- É que...
- É que ele estava com uma modelo em casa ontem à noite e não quis dividir com a gente.
Rosinha olhou para o Tiago com uma cara de não sei se "menina sem vergonha" ou
"mamãe dando bronca no filhinho".
- E o que é que tem, Titica? O Dezito não é praquelas suas pé de valsa não. - Virou-se para mim. - Faz bem passar um tempo com a moça, Dezito. Deve ser muito boa gente.
- Obrigado, Rosinha. - eu agradeci, embora pouco do que ela falara me fizesse sentido, e ela saiu.
- Depois da aula você me conta tudo, heim, rapaz? Não é possível que ela tenha ido te procurar, não tenha te matado e o saldo tenha ficado em dois beijos.
- Eu conto. Mas você não vai gostar de saber.
Passamos a manhã inteira dando aula, das sete horas até meio dia e meia. Depois que a aula terminou, nós fomos para a sala dos professores e começamos a conversar. Achei estranho ele não ir direto ao assunto de ontem à noite.
- E aí? Como foi a conversa com o Lacerda ontem depois da aula?
- Foi tranquilo. Boas notícias, eu diria.
- O que é mesmo que ele queria? Ele fez um mistério tão grande em cima disso.
- É verdade. Mas era por uma boa causa. A conversa tinha duas pautas, na verdade.
- E quais eram? Vai virar coordenador da equipe de português, por acaso?
- Vou. - eu disse, sorrindo.
- Aaaahhhh, rapaz!! Esse é o meu garoto! E a segunda pauta?
- Vou assumir as aulas de inglês também.
- Eita! Agora é que você vai rachar de trabalhar.
- E de ganhar dinheiro - eu disse quase gargalhando.
- É verdade. Mas agora para de me enrolar. Conta direito como foi a história de ontem à noite com aquela loirona.
- Depois que te deixei em casa, batemos um pega cidade a fora. Consegui despistá-la, dei uma enrolada por aí e, quando cheguei em casa ela estava lá.
- Como assim? Já deu a chave da sua casa pra modelo, rapaz? Já vai casar?
- Não, seu doido! Ela conseguiu a chave do meu apartamento. E de algum jeito que eu não consigo imaginar qual.
- Sei... Que mais?
- Eu imaginei que houve várias maneiras possíveis pra ela me apagar ontem à
noite mesmo. Conversamos um bom tempo, descobri que ela é nova nessa coisa de matadora de aluguel e tal...
- E...?
E eu contei todo o resto da história ao Tiago. Ele ficou surpreso com aquilo
tudo - quem não ficaria? - e ficamos conversando na sala dos professores
durante um longo tempo. Esquecemo-nos até de almoçar. Lá pelas duas e meia da
tarde nós resolvemos almoçar juntos e conversamos mais um bom bocado. Parece
brincadeira, mas fui sair do colégio já depois das quatro horas da tarde,
depois de muita conversa. Olhei para o relógio e fiquei espantado com o tempo
que passamos conversando.
- Eu vou andando, Tiago. Quer carona pra casa de novo?
- Eu não sei... Será que é seguro?
- Uai... Por que a pergunta?
- A loirona pode estar à sua espera lá fora como ontem e anteontem.
- Ah! Relaxa... Se ela estiver, ela vai atrás de mim e não de você. - espiei, da porta de entrada do colégio, o outro lado da grade. Parecia que ela não estava lá. Pelo menos não no mesmo lugar onde estava antes de começar a me seguir nos dois dias anteriores.
- Acho que não está lá.
- Então eu aceito a carona.
Deixei o Tiago em casa e fui embora vigiando os retrovisores à procura do conversível vermelho ou de outro carro que me estivesse seguindo desde a porta do colégio. Nada. Acho que eu estava seguro, finalmente. Estacionei o carro, subi pelo elevador, entrei no meu apartamento e caí na cama. Dormi igual a uma pedra até as sete horas da noite. Quando acordei, meio desorientado, vi que ainda era cedo naquela noite quente. Levantei, tomei um banho, troquei de roupa peguei o meu violão e desci. Adorava tocar violão embaixo do bloco
vizinho. Ficava de frente pra um monte de ruas movimentadas e aquela visão de um monte de carros passando à noite me era agradável para tocar.
Sentei embaixo do bloco, tirei o violão de dentro da bolsa e comecei a tocar. Tocava e cantava como se fosse pra uma roda de amigos. Tocava as canções de que mais gostava e das que os meus amigos mais gostavam. Toquei durante quase uma hora e, de repente, ela apareceu. Estava linda, como sempre, mas linda como nunca. Uma calça jeans escura com uma blusa branca e, por cima da blusa, a jaqueta de couro marrom. Não sei se foi porque ela fizera alguma coisa diferente no cabelo ou se era porque simplesmente estava com a cara fechada.
Ela já apareceu com uma pistola na mão, parou perto de mim e apontou a arma já com o dedo no gatilho. Aquilo não me assustava mais e, ainda que ela fosse mesmo me matar, eu estava tão tranquilo que nem eu mesmo me reconheci. Não parei de tocar por causa daquela cena. Aliás, não parei por nada.
- Olá, mocinha.
- Não começa.
- Não posso mais cumprimentar? - eu só não cantava mais, mas continuava tocando e prestando atenção nas cordas do violão, e não nela. Talvez isso a irritasse mais.
- Não sei se faz sentido cumprimentar quando você não vai poder se despedir.
- Adeus.
- Não me provoque!
- Ou o quê?! - parei de tocar subitamente e olhei para ela com a cara ainda mais fechada que a dela. Fiz uma coisa de que muita gente não gosta: olhei para ela por cima da lente dos meus óculos. - Ou o quê?! Vai atirar em mim? Ou vai dar um chilique?
- Eu disse pra não me provocar. - ela armou o cão da pistola.
- Ou o quê? Você vai me matar? Eu não acredito. Está me procurando há três dias pra fazer esse serviço ridículo de fácil e não o fez até agora. Será que ainda fará? Vai puxar o gatilho? Não o puxou ainda por quê?

Ela me olhava fixamente. Os olhos queimando não sei se de raiva ou de
desprezo.
- Você não escapa hoje.
- Anteontem você disse a mesma coisa pra ontem e ontem você disse a mesma coisa. - coloquei o violão em cima da bolsa. - No entanto, estou aqui. Escapando toda vez.
- Cala a boca! - ela deu um passo para trás e apontou a pistola para a minha testa. Continuou olhando fixamente para mim. Seus olhos e mãos estavam trêmulos.
- Atira. - ela não reagiu. Fiquei em pé, cheguei mais perto dela e delicadamente peguei suas mãos e encostei o cano da pistola no meio da minha testa. - Atira, Isabela.
Ela continuava olhando para mim sem se mover. Aquilo irritou-me profundamente. Gritei:
- Atira, vadia inútil!
- ...
- Está com medo de quê? Você está armada e a arma está na minha cabeça! Puxa a porra do gatilho e acaba de uma vez com isso!
Ela começou a chorar.
- Atira, sua desgraçada!
- Eu não consigo, André! Eu não consigo! - ela chorava descontroladamente. Não conseguia mais segurar a pistola apontada para mim. Abracei-a, encostei-me numa parede, encostei a cabeça dela no meu peito e dei-lhe um beijo na cabeça. Peguei a pistola de sua mão e pus dentro da bolsa do violão.
- Não chora, menina.
- Por que faz isso, Dé? - ela disse entre soluços.
- Desculpa. Não se ofenda assim.
- Não me ofendo com o que você disse. Nem um pouco. Quero saber por que você faz o que faz comigo.
- Eu já te disse ontem.
- Ai, Dé...
- Eu já disse que você tem o coração mole. Esse serviço não é pra você. Você devia ser modelo.
- Ele vai me matar, Dé. Hoje era o último dia. Ele vai me matar.
- Ele sabe onde eu moro?
- Não.
- Então vem comigo.
- Pra onde?
- Pro meu apartamento.
- Nossa... Isso soa meio clichê, não acha? - ela disse enxugando as últimas lágrimas e riu.
- Você não quer que ele a encontre e eu também não. Talvez ficar lá em casa um pouco seja uma boa opção, não acha?
- É verdade.
- Então vamos.
Pus o violão na bolsa, peguei minhas coisas e fui segurando a mão da Isabela.

domingo, 15 de março de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 4

Eu matei uma assassina - Parte 2
- Vem cá, rapaz... Você não costuma ficar com essa cara nem nos dias mais pesados aqui no colégio.
- Ora, Tiago... Que cara?
- Essa.
- Mas eu nasci com ela, homem! Só tenho essa mesmo.
- A-ha-ha. Engraçadão você, heim?
- Você me conhece... - eu disse com um sorriso cínico.
- Então, conta aí. O que aconteceu? Está com cara de quem tomou um susto enorme de ontem pra hoje.
- É mais ou menos isso. Aconteceu uma coisa bem incomum.
- Como o quê?
Pedi pro Tiago me acompanhar até a sala dos professores, aproveitando que estávamos no horário do intervalo entre as aulas. Teríamos uns vinte minutos pra conversar até o começo da aula seguinte.
- Ontem, quando saí daqui, fui seguido até em casa.
- Quem era?
- Uma assassina de aluguel.
- Ah, André! Dá um tempo!
- É sério, cara. Loura, alta, num conversível vermelho... Ela me seguiu até em casa.
- E, vem cá... Como é isso? Como é que ela é uma assassina de aluguel, seguiu você até em casa para te matar, eu suponho, e você está aqui para contar a história?
- Será que é porque ela não me matou?
- Tá, rapaz. Deixe disso e diga logo o que aconteceu.
- Basicamente nós conversamos até o cair da noite. Ela me seguiu daqui até em casa, fomos juntos ao supermercado, voltamos pra minha quadra, conversamos até perto das sete horas e ela foi embora. Disse que voltaria pra me matar hoje.
- Ah... Então pode ser que você não venha amanhã? Essa é boa...
- Não se surpreenda, se eu não vier mesmo.
- Tá certo. Vem cá... Pode me dar uma carona até em casa hoje? Meu carro está na oficina.
- Claro! Vem aqui pra sala dos professores depois da aula. O Lacerda disse que queria conversar comigo hoje depois da aula. Deve ser rápido. E aí a gente vai.
- Conversar o que com o Lacerda?
- Ele disse que era surpresa. Vamos. A gente vai acabar perdendo o horário da aula.
Isso foi perto das dez horas da manhã. O resto da manhã correu bem e, ao meio dia e meia, voltei para a sala dos professores, como combinara com o Tiago. Cheguei lá e, em cinco minutos, fui chamado pelo Lacerda para a sala da diretoria. Conversamos por mais ou menos meia hora e, depois, fui almoçar com o Tiago. Conversamos um bom bocado na hora do almoço, voltamos para o colégio para uma reunião de professores com o diretor e saímos do colégio no mesmo horário de ontem, em torno de quatro horas da tarde.
- Cara... Eu quero ver o que você vai fazer se o seu carrão quebrar.
- Por quê?
- Porque o seu esportivozinho só tem motor! Não tem portamalas, só entram duas pessoas nele...
- É como eu costumo dizer; esse é um carro pra ter, não pra usar.
- Sei, sei...
Saí do estacionamento sem pressa, como de costume. Virei à direita ao sair, peguei a rua e...
- Aí atrás, Tiago.
- O quê?
- A loura do conversível vermelho.
Tiago espiou pelo retrovisor direito e...
- Rapaz... Que mulherão, heim?
- Eu disse.
- E ela vai te matar hoje, é?
- É o que ela disse que tem que fazer.
- Ela não vai.
- Como assim?
- Ela não vai te matar.
- Como assim, Tiago?
- Se ela fosse te matar mesmo, teria feito isso ontem.
- Tá, tá... Sei...
- Aposto o teu ingresso pro forró hoje à noite.
- Ah, é?
- Se você for hoje à noite, eu pago o seu ingresso.
- E se eu aparecer só amanhã de manhã?
Parei o carro em frente ao prédio do Tiago e ele respondeu antes de sair:
- Se aparecer vivo, o seu ingresso pro forró na semana que vem está garantido com open bar, porque eu tenho certeza de que, se você não aparecer hoje e estiver vivo amanhã, é porque ganhou a modelo.
- Corta essa, doidão!
- É sério!
- Tá, tá, Tiago, tá.
- Obrigado pela carona, garotão. Até mais - ele saiu do carro e fechou a porta.
- Com open bar, heim?
Tiago fez um sinal positivo com a mão e eu saí. Ela ainda me seguia de perto. Saí da quadra acelerando fundo; queria testar se essa loura era mesmo capaz de fazer o que disse que faria - ou coisa assim. Saí cidade afora acelerando como se estivesse participando de uma corrida. Ela me acompanhou bem durante uns dois minutos e, depois, sumiu do meu retrovisor sem deixar pistas. Finalmente consegui despistá-la. Embora agora eu pudesse ir para casa sossegado por não estar mais sendo seguido, resolvi passar na padaria para comprar - sou doido por eles - uns doces. Fui sem pressa, comi alguns doces, deixei outros para quando chegasse em casa e resolvi que era hora de voltar para casa, tomar um banho e trocar de roupa. Eu não queria chegar tarde para o forró.
Cheguei ao meu prédio, estacionei o carro, saí, travei as portas, subi, coloquei a chave na fechadura e... Como assim? Eu jurava ter deixado a porta destravada antes de sair de casa. "Já sei... Ela deve ter chegado antes de mim e está preparando uma armadilha. Essa musiquinha tranquila no meu aparelho de som..." Entrei.
- Quer dizer, então, que tem a chave do meu apartamento?
- Pode apostar que não é só a chave - ela disse. Apesar de não a ter visto, notei que ela sorria enquanto falava.
Passei pela sala, para o meu quarto - não é possível que ela escondeu a chave da porta do meu quarto - , peguei uma muda de roupa no armário e fui tomar banho. Tomei banho sem pressa - pra que ter pressa de ir ao encontro de uma assassina de aluguel, não é mesmo? - e resolvi fazer a barba. Vesti-me da metade para baixo e, enquanto fazia a barba, percebi que ela estava cozinhando alguma coisa. O barulho de comida fritando na frigideira, o cheirinho de carne, pão e temperos pela casa... "Que diabos essa menina está aprontando?" O barulho de fritura logo parou e deu lugar a um - o meu?! - violão acompanhando a música que tocava.
- Você é mesmo incrível. Desfila, posa, persegue, mata e ainda cozinha e toca violão? - disse a caminho da sala, enquanto vestia minha camiseta.
- Você também deve fazer essas coisas, exceto desfilar e posar.
- Engraçadinha.
- Não é menosprezo. Você é bonito, mas não é modelo, certo?
- Certo.
- E persegue, mata, cozinha e toca violão. Aliás, além do violão, toca guitarra.
- Viu minhas guitarras, então.
- Vi. E descobri que uma delas tem o meu nome. Gosta dele?
- Adoro - eu disse sorrindo. Decidido a testá-la, falei: - Agora vamos. Combinei de ir dançar forró com uns amigos. Vai ser ótimo tê-la como companhia.
- Por que não ter a minha companhia e só ela, por enquanto? - ela perguntou, sacando a arma e apontando para o meu rosto. Ela estava em pé no meio da sala e eu apenas longe o bastante para que ela não encostasse sua arma em mim estando com os braços esticados.
- Essa pose não me assusta mais, Bela.
- Ah, não? Que tal com o dedo no gatilho?
- Você é uma graça, sabia? - falei abaixando a arma dela e olhando para a mesa da sala. Havia duas taças de vinho cheias pela metade. Olhei para ela de novo tentando fechar a cara. - Você abriu o meu vinho?! Isso é um vinho caro, sabia?
- Eu sabia. Por isso mesmo abri. Achei que era uma ocasião especial.
- Então também não sabe que eu não bebo - eu disse já sorrindo de novo.
- Não bebe?
- Ah, Bela! Como conseguiu chegar até mim sabendo o pouco que sabe?
- Bem... - ela procurou uma resposta por alguns segundos, deixou a pistola em cima da mesa e... - Vou buscar o nosso jantar.
- Preparou um jantar pra dois? Você é um amor!
Ela voltou da cozinha com um prato em cada mão, entregou-me um deles, sentou-se no sofá e começou a comer.
- De quem ganhou o seu brinquedo?
- Qual deles?
- A pistola no portaluvas do seu carro.
- Ah, sim. Meu irmão me deu. Em parte para me parabenizar pela conclusão do curso de tiro e em parte para para me compensar pelo presente que eu dei a ele quando ele entrou para a polícia.
- E que presente foi?
- Uma Heckler & Koch igual á que ele me deu.
- Você gosta de presentes caros, heim? Os seus carros, o presente do seu irmão, o seu vinho, que, por sinal, está uma delícia...
- Eu estou aqui me perguntando: de quantas maneiras diferentes você poderia ter me matado até agora? E, mesmo assim, não me matou. Poderia ter sabotado meus carros, atirado em mim, explodido o meu apartamento comigo dentro com o gás da cozinha, feito alguma arapuca com o meu chuveiro e me matar eletrocutado com ele, envenado esse pão delicioso...
- O efeito de um veneno no pão ainda viria.
- É. Mas ele não vem.
- Ah, não?
- Não. Senão, você não me teria ameaçado com a pistola de novo.
- Você é esperto. É um menino, mas é muito esperto.
- Menino? Eu? Quantos anos acha que eu tenho?
- Eu sei que você tem vinte e cinco.
- E quantos anos você tem? Com essa carinha de anjo, não sei se tem vinte.
- Vinte e três.
- E mata por dinheiro há quanto tempo?
- Olha... Se vai me interrogar... - interrompi-a pegando meu violão e começando uma música. Comecei, parei no meio, desliguei o aparelho de som e continuei a tocar.
- Você não canta? - ela perguntou.
- Canto.
- E por que não solta essa voz?
- Ah... Não sei se você gostaria disso - deixei o violão no sofá e fui para a varanda. - A noite hoje está tão bonita, não é?
- Está - ela já estava ao meu lado, debruçada sobre o parapeito.
- Como entrou pra essa vida de assassina de aluguel?
- É uma... - hesitou. - ... longa história.
- Conte-me. Estou disposto a ouvir. Tenho a noite toda.
Curioso foi notar que ela deixou escapar uma lágrima de cada olho e, rapidamente as enxugou antes de me perguntar com um claro ar de reprovação.
- Por que quer tanto saber?
- Porque não cabe na minha cabeça a ideia de uma garota linda como você largar a carreira promissora de modelo que tinha para fazer um trabalho sujo desses.
- Eu nunca matei ninguém na minha vida! Você é o primeiro desse serviço sujo.
- Então não tem sangue em você. Não desse jeito.
- Não, André - ela abaixou a cabeça e enxugou as lágrimas. - Desculpa. Dé. Ainda não.
- Ah... "Ainda" não? Se eu sou o primeiro, você nem deve ter largado a carreira de modelo ainda.
- Para com isso! - não eram mais só lágrimas, era um verdadeiro choro. Pus sua franja para trás de suas orelhas, tirei suas mãos de seu rosto e, enquanto enxugava suas lágrimas...
- Não faça isso. Você é muito novinha. Não devia fazer esse tipo de coisa. Deixaria-a traumatizada pro resto da vida.
- Não sei - hesitou e mudou de assunto. - Está frio aqui fora.
Abracei-a. Não, enrolei-a nos meus braços. Ela parecia um bebê desamparado. Encostou a cabeça no meu peito, as mãos juntas entre o meu peito e o dela. Suspirou. "Que será que essa menina tem? Por que tenta fazer isso?"
- Vai pra casa, menina.
- Hm-hm - respondeu negativamente.
- Desiste desse serviço, desiste de me matar, vai pra casa e, domingo, você não vai ter mais quem cobre o seu serviço de você.
- Não, André.
- Vai embora, antes que eu faça alguma besteira.
Ela olhou fundo dentro dos meus olhos. Um olhar daqueles que fazem um bruto cair de joelhos.
- Não, André! Já disse que não!
Segurei o seu rosto entre as minhas mãos com vontade e beijei-lhe a boca. Não sei se por pura brincadeira ou porque estivesse apaixonado pela figura da assassina de coração mole. Pensei que ela fosse querer sair de perto de mim, correr para a sala, pegar a pistola e esvaziar o pente na minha testa, mas não. Rendeu-se. E parecia que não queria outra coisa a não ser aquilo. Depois de um longo beijo e de me abraçar, ela perguntou:
- Por que faz isso?
- Porque sim.
- Isso não é resposta, Dé.
- Então é porque você tem o coração mole e eu acho um desperdício você deixar a sua vida tomar esse rumo horrível.
- Você fala que é tão horrível matar alguém... Por que quer matar o chefe da GREVE?
- Eu tenho contas a acertar com ele.
- Sei...
- Mas isso é história pra outro dia. Vai pra casa tratar de coisas menos importantes que o seu "serviço".
Ela foi para a sala, pegou a bolsa em cima do sofá, pegou a pistola, guardou-a dentro da bolsa e virou-se.
- Eu venho amanhã de novo e, juro, você não escapa.
- Se você vier amanhã, você é quem não escapa.
- Escapar de quê, professorzinho?
- Você não vai conseguir fazer isso. Você tem o coração mole. Entrou na minha casa pra me matar e acabou nos meus braços. Ficou aqui em casa até agora, mas não foi pra me matar, eu tenho certeza disso. Se voltar amanhã... - hesitei. - Quanto mais vezes voltar, mais difícil ficará pra você. Acredite.
Ela andou até a porta e eu a acompanhei de perto. Abri a porta para ela, ela passou para o lado de fora e disse:
- Eu volto amanhã. E...
- "Eu te pego, professorzinho."
- É.
- Se voltar amanhã...
- O quê? Já disse isso duas vezes. Se eu voltar amanhã...?
- Vai ser mais difícil que hoje.
Ela chamou o elevador, voltou para me beijar e, ao ouvir o elevador chegando, disse...
- Tchau. Amanhã eu te mato.
- Não. Amanhã EU te mato.
Ela entrou no elevador e, de lá de dentro, antes de deixar a porta fechar, com uma das mãos me mandou um beijo e, com a outra, fez uma arminha disparando contra mim. "Droga... Perdi o horário do forró. Acho que não vou mais." Retribuí o gesto integralmente.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 3

Eu matei uma assassina - Parte 1
- E aí, André, como foram as aulas hoje?
- Normaizinhas. Parece que a molecada tava com pulga na cueca hoje de manhã, mas foi divertido.
- É sempre divertido pra você, né? Tudo é festa mesmo?
- Ah! Em sala de aula eu me divirto com tudo. Até com os bagunceiros.
- Só você pra querer dar aula pra terceiro ano do ensino médio.
- Olha só! E você faz o quê?
Isso aconteceu já bem depois do meio dia. Já passava, aliás, das quatro da tarde de um dia em que trabalhei a manhã inteira no colégio, almocei por lá e houve conselho de classe à tarde. Pela minha cabeça não passava mais que ir para casa, pegar o outro carro e ir ao supermercado fazer umas compras. Uma bela tarde de quarta com um sol dourado lá fora.
- André, vamos a uma boate mais tarde? Vai rolar um forró bacana hoje à noite.
- Ô, Tiago, hoje não vou. Desculpa.
- Ora... Vamos, rapaz! Você é solteiro! Vinte e cinco anos! Cheio de energia! Vai se divertir.
- Cara, eu estou meio cansado hoje. Vou pra casa trocar de carro, fazer compras e voltar pra casa pra descansar.
- Que é isso, homem! Fazer compras e descansar? Que diabo de solteirão é você?
- Ah! Responde essa, vai! Gosto tanto de ouvir!
- Vinte e cinco anos, professor de sucessíssimo, anda de carro esporte... e está dispensando um forró? Logo você dispensando forró?
- É... Mas se rolar outro amanhã, eu vou. Prometo.
- Vê lá, heim? Até amanhã!
- Até amanhã, Tiago.
Bem como o Tiago disse: entrei no meu carrinho esporte, dei a partida, manobrei pelo estacionamento do colégio - que estava vazio para uma quarta à tarde e saí sem pressa. Depois de um tempo, percebi que estava sendo seguido. Há quanto tempo esse - outro - esportivo está me seguindo? Não deve ser nada.
Parei num semáforo e percebi que não só era um esportivo como era um conversível. E vermelho. Com uma bela loura ao volante. E só ela dentro do carro. "Deixa de ser besta, André. Pessoas não seguem outras pessoas no trânsito por aí. Não numa quarta à tarde." O sinal abriu, virei à direita e segui. E lá vem o conversível vermelho. Será que o meu cupê amarelo chama tanta atenção assim? Convenhamos que não é muito mais gritante que um conversível vermelho.
Depois de mais uns cinco minutos de volante, esqueci-me de que estava sendo seguido. Entrei na garagem do prédio, estacionei, saí do carro, subi para o pavimento térreo para pegar o outro carro e ir fazer compras e... Hã? Que faz a loura do conversível vermelho - com ele - na frente do meu carro? Está bloqueando a minha saída. Antes mesmo de abrir o carro:
- Posso ajudar em alguma coisa, moça?
Ela tirou uma pistola de dentro da jaqueta de couro e apontou para mim.
- Acho que não.
- Ah! Entendi. Você veio me matar, não é? Deixe para mais tarde um pouco. Eu preciso fazer compras.
- Não vai precisar delas - ela disse com um tom sério e uma cara mais ainda.
- Ah, eu vou. Eu sou solteiro, tenho vinte e cinco anos e me recuso a morrer com um tiro sem ter comido nada antes - destravei o meu carro e fui entrando. - Entra aí. Vamos comigo. Mais tarde você me mata.
A loura fez uma cara de quem achou tudo aquilo muito estranho - e qualquer um teria achado. Estacionou o carro ao lado do meu, entrou e saímos.
- Por que você quer me matar?
- Porque você sabe demais.
- Ah, claro! Eu sou professor, sabe? Eu preciso saber o que eu sei pra dar aula.
- Não, André. Não é isso.
- Então sabe o meu nome? Não me surpreende. Sabe onde trabalho, onde moro, que tenho dois carros... Que mais você sabe?
- Que você conhece a GREVE.
- Ahn... A GREVE. Fala do grupo de ratos que faz tráfico ilegal de armas cuja sede é aqui na minha quadra e, teoricamente, ninguém sabe a respeito?
- Exatamente.
- E por que esse nomezinho ridículo? Não tinha um piorzinho um bocado para um grupo de traficantes de armas?
- Como?! - ela me olhou com um ar de não sei se susto ou reprovação.
- É. Que nome ridículo!
- Bom... - ela se ajeitou no banco do passageiro. Se você sabe o que é a GREVE, sabe quem me mandou, suponho.
- Sei. E se você sabe quem sou, onde trabalho, onde moro e que tenho dois carros, também sabe que vou matar quem te mandou, certo?
- Ahahahaha! - ela riu descontroladamente.
- Não ria. Ele não passa de domingo.
- Como você pretende matá-lo?
- Vai ser fácil. Como ele está instalado num apartamento num prédio na minha quadra como um morador comum, não há segurança no prédio que me segure. Ele não instalaria nenhum sistema de segurança superavançado porque isso chamaria a atenção de outros traficantes tão grandes e nojentos quanto ele. Sem falar que isso atrairia a atenção da polícia, uma vez que os porteiros do prédio saberiam que no apartamento tal há um sistema de segurança assim assado.
- É? E como pretende entrar?
- É segredo. Mas ele não vai ver o nascer o sol da próxima segunda. Domingo à noite ele vai dormir e não vai acordar mais.
- Gostei de você.
Parei no supermercado e ela ficou dentro do carro enquanto eu fui rapidamente fazer as compras de que precisava. Propositadamente deixei-a dentro do carro para que fuçasse coisas como o meu portamalas - e não achasse mais que livros e cadernos novos e velhos - e meu portaluvas - e achasse um portadiscos e, quem diria, uma pistola 9mm automática. Quando cheguei de novo ao carro, surpreendi-a com minha pistola na mão.
- Ei! Esse brinquedo é meu. Ponha no lugar já - falei sério e incontestavelmente imperativo.
- Tá bom, tá bom, pronto - ela pôs de volta a pistola no portaluvas num gesto rápido e um pouco atrapalhado.
- Eu tenho ciúme desse meu brinquedo. Ganhei de presente. - eu disse depois de colocar as compras no portamalas e entrar no carro de novo.
- O que faz um professor de segundo grau com uma Heckler & Koch no portaluvas?
- Quase a mesma coisa que uma modelo com uma 9mm no bolso da jaqueta.
- Ei! Como sabe?
- Ah... Você não me engana; loura, olhos azuis, um rosto lindo, quase 1,80m de altura, magrinha... Você é modelo nas horas vagas ou já foi, num passado não muito distante.
- É verdade... Já fui modelo, sim.
- Eu sabia.
- Que mais você sabe a meu respeito?
- Nada, eu acho. Nem mesmo o seu nome.
- Não seja por isso. Isabela Müller.
- E você? O que sabe a meu respeito, Bela?
- Eu...
- Não se importa que eu a chame de Bela, né?
- N... Não.
- Diga.
- Sei que você dá aulas de português e de inglês naquele colégio, que mora aqui, anda num cupê esportivo amarelo e tem um sedã verde escuro "de reserva". Mora sozinho num apartamento pequeno de três quartos por que quer, e não por falta de dinheiro.
- Que mais?
- Que mais eu deveria saber?
- Quem te mandou deveria tê-la informado de que eu sou um sujeito um pouco perigoso até quando estou desarmado.
- Como assim?
- Eu sou karateca e kickboxer.
- Impossível. Eu teria sabido, se essas informações fossem relevantes.
- Não, não teria sabido. As informações não são relevantes porque não sou faixa preta. Mas elas deveriam ser porque não sou faixa preta por não ter querido fazer os últimos exames. Eu teria de tirar porte de armas para isso.
- Bonito você, heim? Quer dizer que tem uma Heckler & Koch no portaluvas e não tem porte de armas?
- Eu não disse que não tenho. Disse que, pra pegar a faixa preta, teria de tirar. Isso poderia me tornar conhecido para uma ruma de traficantes de armas nojentos. Ah! Para a GREVE.
- Fala deles com tanto desprezo quanto falaria de uma barata.
- Mas eles são desprezíveis. Muito desprezíveis. E têm um nome ridículo. Aliás, dá pena saber que você trabalha pra eles, sabia? Pelo amor de Deus!
- Quê?!
- Uma assassina de aluguel tão competente deveria escolher melhor para quem trabalhar. Ou vai me dizer que aceitou o serviço porque eles pagam bem.
- Ehr... Eu...
- Imaginei.
Isabela falou mais coisas a seu próprio respeito no caminho de volta para a minha casa. Falou tanto que não deu tempo de falar tudo só no caminho. Ficamos dentro do meu carro, no estacionamento do prédio, por mais de hora, enquanto ela dizia coisas como o quanto teria gostado de seguir a carreira de modelo, por exemplo. Quando chegou a esse assunto, começou a chorar, falou mais algumas coisas, pediu desculpa pela cena e...
- Vai pra casa, Bela. Hoje não vai ser um bom dia pra você matar ninguém. Não conheço um só bom assassino de aluguel de sangue quente.
- Mas...
- Tenho certeza de que o verme não se zanga se você demorar um diazinho a mais do que o esperado.
- É que...
- Deixe disso. Vai acabar tendo um ataque de nervos, se me matar hoje. Volta amanhã. Já sabe onde é a minha casa, onde trabalho, que carros tenho... Vai ser fácil. Volta pra casa, descansa e amanhã você me mata.
- Obrigada, Dé.
- De n...
- Não se importa que eu o chame pelo apelido, né?
- Não - corei.
- Então até amanhã.
Saímos de dentro do meu carro. Enquanto eu abria e descarregava o meu portamalas ela entrou no conversível vermelho e arriou a capota. Fechei o portamalas e ela disse:
- Não pense que amanhã será tão fácil pra você quanto foi hoje.
- Não pense que amanhã será tão difícil pra você quanto foi hoje - eu disse com um sorriso malicioso no rosto.
- O que foi tão difícil?
- Descubra amanhã. Você precisa descansar um pouco e eu também.
- Eu te pego, professorzinho.
- Estou esperando. Beijo e até amanhã.
- Até amanhã.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O sentido dos sentidos

Não sei se acontece com vocês, se acontece com todos nem se é normal, mas hoje eu reparei uma coisa que achei bem esquisita. Levanta a mão aí quem um dia sentiu que os sentidos estavam todos aguçados - tá, não precisa levantar a mão. Vai ser engraçado alguém te ver na frente do computador com o braço erguido. Então...
Eu já reparei que toda manhã, quando acordo, a minha audição está absurdamente aguçada. Não só de manhã, na verdade. Depois daquele cochilo que a gente tira à tarde - pra matar a "depressão pós-almoço" - até mesmo o barulho da água do chuveiro caindo no chão torna-se ensurdecedor. Tudo bem, até aí, pra mim, é normal. O fato é que não é só isso.
Hoje de manhã, quando estava chegando no trabalho, comecei a perceber essa mudança estranha. Deixei o carro com o manobrista e fui andando até a portaria do prédio - não deve dar mais que cem metros de caminhada. Nesses mínimos cem metros eu senti - juro que contei - quinze cheiros diferentes. E antes tivessem sido um cheiro de pipoca, outro de massa cozinhando, outro de cocô de cavalo - que são cheiros fortes e acho que qualquer um reconhece quando sente. Desses cheiros todos, posso dizer genericamente, que quatro eram cheiros de coisas podres, cinco eram cheiros de rua - fumaças, asfalto e pneu queimado - três de produtos de limpeza e três de perfumes.
Segundo assalto. Enfiei a mão no bolso da calça para pegar as chaves da porta do escritório, que ficam no mesmo molho de chaves em que levo as de casa. Pois pus a mão no bolso e, por mais incrível que me parecesse, reconheci a chave que fica imediatamente abaixo da maçaneta pela textura da cabeça da própria chave - seria fácil reconhecer a outra, pois é uma chave tetra. Como fiz isso? Nem eu sei. Enquanto destrancava a porta, percebi as inúmeras irregularidadezinhas dos meus lábios - que estavam ressecados - e de dentro da minha boca - às vezes, por nervosismo, mordo a pelezinha de dentro dela. São coisas que não costumo notar com facilidade e muito menos com a mesma precisão com que fiz hoje de manhã.
Terceiro assalto. Entrei no escritório, liguei o computador, o condicionador de ar e saí de novo para comprar o jornal do dia na banca de revistas ali perto. Tranquei a porta, peguei o elevador e... Que gosto é esse? Ah... A manteiga de cacau que eu passei assim que entrei no escritório. Nunca tinha reparado que ela não tem gosto do que quer que o rótulo diga que ela tenha. Na verdade, nunca tinha reparado nem que ela tem gosto, só que deixa a boca meio melequenta - do mesmo jeito que fazem os brilhos labiais das moças. Enfim...
E não parou por aí. Quem me conhece sabe que tenho hipermetropia, astigmatismo e estrabismo. Então, o último sentido que, pela lógica, poderia ficar aguçado por qualquer razão, é a minha visão. Mas mesmo ela teve lá suas alterações. Como caminhei até a banca de revista com a cabeça baixa, não percebi muita coisa diferente, mas eu não sabia que o asfalto tinha tanto mais que só cinza, branco e amarelo. Cheguei à banca, comprei o jornal e voltei. Desta vez, com a cabeça bem erguida. E fiquei impressionado com o número de cores que vi e percebi em outras cores enquanto voltava ao escritório. Não sabia que a cor prata da Fiat tinha o espectro azul e a prata da Chevrolet tinha o espectro cinza. "Espera, André, que coisa mais esquisita em que reparar." Mas é verdade. Dois Fiat Palio, dois Fiat Uno e um Fiat Marea prateados entre a banca de revistas e a portaria do prédio do escritório. A prata da Fiat tem, realmente, um fundo azul. Três Chevrolet Corsa, uma Chevrolet Meriva, dois Chevrolet Astra, um Chevrolet Vectra - e todos estes prateados. Engraçado, a prata da Chevrolet é, realmente, meio acinzentada.
Agora... Por que diabos isso acontece? Alguma razão especial? Algum palpite? Se a resposta pra essas perguntas for "Não sei", "Não sei" e "Não", respectivamente... Bom... Bem-vindo ao Answerless.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Pra começar bem...

E por que não começar o ano falando de Letras e afins? Afinal de contas, não é essa a minha área de trabalho e estudo? Acho que, de vez em quando, esse tipo de assunto num blog é bem-vindo - será que eu usei direito esse hífen?
--
O novo acordo ortográfico - opinião pessoal
Eis um assunto que há tempos eu penso em colocar em discussão aqui no Answerless. Um assunto que, diga-se de passagem, tem-me dado dor de cabeça desde que tomei conhecimento - e isso já faz um bom tempo. Qual é a opinião de vocês, leitores, a respeito desse novo acordo ortográfico?
Tenho salvo no meu computador um endereço eletrônico que traz, descritas e explicadas, as novas regras de ortografia da língua portuguesa. Depois de, finalmente, aceitar que as mudanças já foram feitas, aprovadas, que já estão em vigor e depois de ler e reler aquele troço sei lá quantas vezes eu me pergunto: pa-ra-quê?
Peço desculpas antecipadas por escrever "à moda antiga" daqui até o fim da postagem. Logo vocês entenderão por que.
Comecemos pelo hífen. Finalmente o uso desse tracinho enjoado ficou mais simples. Na minha cabecinha de vento as regras para o uso do hífen ganharam mais lógica. Contudo, devo dizer que foi a única mudança que achei positiva - entre as tantas feitas na nossa bela língua. Atentemos agora para os "podres".
Por exemplo: o que passa pela cabeça de uma pessoa quando pensa em sumir com o acento de metade das paroxítonas e com acentos diferenciais? Pelo amor de Cristo! Não! Se "tem" e "têm" continuam diferentes na escrita e as pessoas sabem que o primeiro é singular e o segundo é plural, por que diabos sumir com o acento diferencial de "pára"? Não é ele, afinal de contas, que diferencia uma preposição de um verbo? Qual é, exatamente a utilidade disso?
Outro exemplo: por que tirar o acento de palavras como "paranoia"? Não é paranóia demais? Seguindo a mesma mecânica que faz com que uma poça seja uma "pôça" e não uma "póça", daqui a não muitos anos a nossa paranóia vai virar paranôia.
Quem quiser discordar - com ou sem motivo - , que discorde. Não tem problema. Mas há mais para discutir. Uma mudança de derrubar o queixo: o sumiço do trema. Tudo bem, tudo bem. Perdi as contas de quantas pessoas já ouvi falar que acham um saco colocar aqueles dois pontinhos nojentos em cima do "u". Contudo, a maioria delas acha um saco ter de colocar acento em um monte de palavras. Só que - pelo amor de Deus! - ninguém dessas pessoas já pensou que, fatalmente, daqui duas ou três gerações, calculo eu - leiam como leriam até 31/12/2008, por favor - , a lingüiça vai virar linguiça, ninguém mais vai freqüentar lugar nenhum - e sim frequentar - e muitas pessoas não aguentarão muitas coisas que enfrentam no seu dia-a-dia?
Certo, certo. Vá lá. Regras são regras e elas foram feitas para ser seguidas. Uns acentos a menos, uns tremas a menos, uns hífens mais assim e menos assado... Mas a mudança "suprema", aquela que não cabe na minha cabecinha, aquela que não me desce pela goela nem que empurrem, é a adoção de K, W e Y no nosso alfabeto.
Ai...
Para quê? Pergunto a vocês, leitores, e a mim mesmo: pa-ra-que, meu Deus do céu? Como professor de português, corretor de imóveis - que está sempre no meio de pessoas que usam palavras difíceis da administração, do direito e de outros ramos - e como - claro! - um rapaz de vinte e dois anos de idade, eu já não agüentava - quer dizer, já não aguentava - ouvir certas coisas. Quando me disseram, certa vez, que eu poderia fazer um leasing para comprar um carro novo, quase tive um enfarto. Leasing não quer dizer financiamento? Mais ou menos. Uma vez uma amiga minha disse que leasing quer dizer arrendamento mercantil de não sei das quantas - era um nome muito comprido e eu não lembro agora. Mas ainda que seja um arrendamento mercantil de patati caixa de fósforo, pra que diabos usar uma palavra que nada tem a ver com as nossas origens?
Outra situação. Um amigo foi para uma entrevista de emprego e me contou que o possível futuro chefe gostou muito dele e disse que pelo seu know how... Pára! Quer dizer, para! Não era muito melhor - e muito mais bonito - dizer que "... pelo seu conhecimento..."? Eu confesso que só não vou tocar em shopping porque eu, no momento, não sei como substituir essa palavra por uma que seja puramente portuguesa. Mas continuo achando que, para toda palavra, expressão ou termo que usemos em inglês, francês ou qualquer outra língua, existe uma palavra, expressão ou termo equivalente no portugês.
Eu, caríssimos leitores, detestei a tal reforma ortográfica. Ressalto, mais uma vez, que todo esse texto é apenas uma opinião pessoal. Não quero que ninguém se ofenda com as minhas palavras aqui. Mas ainda há mais um ponto em que tocar.
Na primeira vez em que ouvi a respeito de reforma da língua portuguesa, acordo ortográfico, coisa e tal, o argumento era que isso serviria para unificar a língua de todos os países falantes de português. E eu torno a perguntar: pa-ra-quê?
Eu já quase fui esbofeteado em certas discussões sobre povos, culturas, línguas e afins. E tais - quase - bofetadas vieram seguidas de "língua é cultura", "cultura é feita de língua", "a língua de um povo é a sua identidade e ela faz dele um povo único". E agora eu me pergunto: cadê esse pessoal que fala essas coisas? Não tinha ninguém que pensasse dessa forma em meio às pessoas que aprovariam ou não o novo acordo ortográfico? Nunca na vida discordei de que língua é cultura e identidade. Jamais. Muito pelo contrário, concordo plenamente com essa idéia - quer dizer, ideia. Na verdade, é um fato e não só uma ideia. Agora que todos os povos que falam língua portuguesa têm as mesmas regras, a identidade deles - inclusive a nossa, brasileiros - , fica abalada? Alterada? Ou some de vez?
Não, não some. Um povo é feito de cultura e a cultura é feita de mais que só a língua. Contudo, uma marca da identidade de todos os povos que falam o português acaba de sumir. Ou, por acaso, achais que não, caríssimos leitores? Não deixem de expressar a vossa opinião pessoal num comentário nessa postagem, certo?
Beijos e abraços a todos!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Lobão

Já dizia ele: "Não dá para controlar/ Não dá!/ Não dá pra programar/ Eu ligo o rádio e bláblá!/ Bláblábláblá, eu te amo". Pior é que não dá mesmo.
Dia de shopping com o papai e as irmãs, cinema, trocar uma camisa que não coube... Dá pra dizer que é um dominguinho normal e feliz pra qualquer um. Mas sabe quando você, de repente, fica meio cabisbaixo, menho nhé, meio "nem tou a fim"?
Não é nada. E é tudo. Os dois ao mesmo tempo. Nessas horas a gente lembra que tá com saudade da namorada que viajou, que tá completando meses de namoro com ela - só que longe dela - , nessas horas a gente se lembra de uma pessoa querida com quem não fala mais - mas adoraria ainda falar com ela - e mais um punhado de coisas pra encher a cabeça da gente.
Mas por quê? Pra quê? Por que e pra que diabos a gente fica nessa cabisbaixice? Não serve pra nada, dá deprê, dá choro, dá cansaço que vem do nada, vontade de afundar a cabeça no travesseiro e não sair mais de lá.
E aí a gente lembra que trabalha amanhã. Mas isso aí nem...
E aí a gente torna a pensar na namorada que tá longe e na pessoa querida com quem não fala mais. E vêm lembranças de todo jeito nas nossas cabeças. Na verdade, não de todo jeito. Quando você tá jantando com a sua mãe e vendo ela espetar uns cacos de salpicão com o garfo ao som de sei-lá-o-quê na Antena 1 que diz "I love you" você lembra só das coisas boas. E fica querendo voltar a ver aquelas pessoas queridas - a namorada que está longe e aquela com quem não se fala mais. Aí eu me lembrei do Lobão dizendo que não dá pra controlar. É engraçado isso, né?
Depois a gente vai pro computador, publica uma bobagem no blog ouvindo música deprê enquanto digita e, daí a umas horas, vai dormir.
Que amanhã é outro dia e tem que trabalhar de manhã cedo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Anyway (à Carolina Genú Nakazato)

Rising from the forgotten,
I tell you no lies,
Here come my words
Rising from the forbidden,
I tell you no lies,
Here comes my look
Searching for the untouched
Words I didn't tell you
Words you didn't hear
Searching for the unknown
Only you could tell
Your answers, maybe

Into the heart of darkness lies my hope
But there is, still, something that remains
Into the heart of darkness lies my hope
To see you again

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway

There should have been a fusion
Between love and hate
They should become one
But I just can't forget
Our happiest days
They just haven't gone

Into the heart of darkness lies my love
Shouldn't I find it all too strange?
Into the heart of darkness lies my hope
To see you again

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway

Never could I understand
Never could I comprehend
What took you from my hands
How it all turned to sand

You could have come to me
I could have come to you
You could have spoken to me
I could have spoken to you
You could have understood me
I could have understood you
But you don't want to see me
And still I want to see you

Into the heart of darkness lies my love
Buried deep into my chest
Out of the heart of darkness I'll find us both
And maybe some rest

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway


--

Anyway (Qualquer Jeito - Tradução)

Levantando-se do esquecido,
Não te digo mentiras,
Lá vêm minhas palavras
Levantando-se do proibido,
Não te digo mentiras,
Lá vem meu olhar
Procurando o intocado
Palavras que eu não te disse
Palavras que você não ouviu
Procurando o desconhecido
Só você poderia dizer
Suas respostas, talvez

Dentro do coração das trevas jaz minha esperança
Mas há, ainda, algo que resta
Dentro do coração das trevas jaz minha esperança
De te ver de novo

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para ver o seu rosto
Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

Deveria ter havido uma fusão
Entre o amor e o ódio
Eles deveriam virar um só
Mas simplesmente não consigo esquecer
Nossos dias mais felizes
Eles simplesmente não se foram

Dentro do coração das trevas jaz o meu amor
Eu não deveria achar isso tudo muito estranho?
Dentro do coração das trevas jaz a minha esperança
De te ver de novo

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para te ver de novo

Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

Nunca pude entender
Nunca pude compreender
O que te tirou das minhas mãos
Como isso tudo virou areia

Você poderia ter vindo a mim
Eu poderia ter ido a você
Você poderia ter falado comigo
Eu poderia ter falado com você
Você poderia ter me entendido
Eu poderia ter entendido você
Mas você não quer me ver
E eu ainda quero ver você

Dentro do coração das trevas jaz o meu amor
Enterrado fundo dentro do meu peito
Fora do coração das trevas hei de nos encontrar
E, talvez, algum descanso

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para ver o seu rosto
Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

domingo, 7 de dezembro de 2008

Gê, Eneú e a Zica (por Isabela Pinheiro)

- Achei que você fosse demorar bem mais pra chegar.
- Não... Demorar mais do que eu já demorei seria muita perda de tempo. Faz muito tempo desde que eu saí de lá.
- Onde é mesmo que você estava?
- Ah, é verdade. Não te contei. Na casa do Eneú.
- Você demorou muito lá. O que foi?
- Pois é. Até agora eu não sei explicar direito. Não sei nem por onde começar. Na verdade, não sei nem se devo.
- Por quê? Você não gostou de ter ficado por lá?
- Eu não sei, pra ser sincera, Zica.
- Eu, heim, Gê... Como não sabe se gostou?
- Sei lá... Às vezes eu acho que passei tempo demais na casa dele. Acho até que esqueci um monte de coisa lá.
- Esqueceu ou deixou de propósito? Você não está com muita cara de quem quis trazer o que levou.
- Eu também não sei. Ainda estou meio perdida. Ele quis me dar umas coisas pra eu trazer, mas também não trouxe.
- Por quê, Gê? Ficou doida?
- Não, sei, Zica! Não sei, não sei, não sei de coisa nenhuma.
- Mas você vai voltar lá pra buscar pelo menos as coisas que ele quis te dar, né? O que era, por falar nisso?
- Ah... Uma almofada.
- Mas não eram "as coisas"?
- É verdade. Mas é uma almofadona em forma de coração com um monte de coisas escritas.
- Tipo o quê?
- Umas palavras soltas. Tipo carinho, respeito, amizade, confiança...
- Coisas que, a essa altura não fa-
- Não fazem sentido nenhum pra mim.
- Tem certeza?
- Ai, Zica! Você fica me dificultando! Já tou meio desnorteada depois de sair de lá e você fica me falando essas coisas! Parece que é de propósito. Eu só sei que...
- Sabe...?
- Nada.
- Fala, Gê.
- Nada, não.
- Fala. Você vai acabar entregando cedo ou tarde. Fala logo.
- Não sei... Eu tenho a estranha sensação de que eu vou ser sempre bem-vinda pro Eneú.
- Pra quem saiu de lá do jeito que você saiu, essa sensação é bem... diferente, né?
- Fazer o quê? Ele passa isso! Eu não sei como, pra ser sincera. Mas eu tenho essa forte impressão de que eu vou sempre ser bem-vinda pra ele.
- Pera um pouco... Deixa eu atender o telefone aqui. Alô?
- Zica?
- Sou eu.
- É o Eneú, tudo bem?
- Oi, moço. Tudo bem, e você?
- É... Mais ou menos. Deixa eu perguntar uma coisa. Você vai encontrar a Gê por esses dias?
- V... Vou... Por quê?
- Pode passar um recado pra ela, por favor?
- Posso, Eneú. O que quer que eu diga?
- É que ela foi embora daqui meio de repente. Eu ia dar uma almofada pra ela, mas nem deu tempo de entregar.
- Hum.
- Diz pra ela, por favor, que, quando ela quiser ela pode pegar. Se ela quiser, eu posso levar pra ela também.
- Tá bom. Pode deixar.
- Brigadão, viu?
- De nada, moço.
- Beijo.
- Beijo. Tchau.
- Tchau.
- Quem era, Zica?
- Era ele.
- O Eneú?
- Ele mesmo.
- O que ele disse?
- Que quando você quiser a almofada, ele te dá e, se você quiser, ele leva ela pra você.
- ...
- Que foi?

Isabela Pinheiro