domingo, 15 de março de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 4

Eu matei uma assassina - Parte 2
- Vem cá, rapaz... Você não costuma ficar com essa cara nem nos dias mais pesados aqui no colégio.
- Ora, Tiago... Que cara?
- Essa.
- Mas eu nasci com ela, homem! Só tenho essa mesmo.
- A-ha-ha. Engraçadão você, heim?
- Você me conhece... - eu disse com um sorriso cínico.
- Então, conta aí. O que aconteceu? Está com cara de quem tomou um susto enorme de ontem pra hoje.
- É mais ou menos isso. Aconteceu uma coisa bem incomum.
- Como o quê?
Pedi pro Tiago me acompanhar até a sala dos professores, aproveitando que estávamos no horário do intervalo entre as aulas. Teríamos uns vinte minutos pra conversar até o começo da aula seguinte.
- Ontem, quando saí daqui, fui seguido até em casa.
- Quem era?
- Uma assassina de aluguel.
- Ah, André! Dá um tempo!
- É sério, cara. Loura, alta, num conversível vermelho... Ela me seguiu até em casa.
- E, vem cá... Como é isso? Como é que ela é uma assassina de aluguel, seguiu você até em casa para te matar, eu suponho, e você está aqui para contar a história?
- Será que é porque ela não me matou?
- Tá, rapaz. Deixe disso e diga logo o que aconteceu.
- Basicamente nós conversamos até o cair da noite. Ela me seguiu daqui até em casa, fomos juntos ao supermercado, voltamos pra minha quadra, conversamos até perto das sete horas e ela foi embora. Disse que voltaria pra me matar hoje.
- Ah... Então pode ser que você não venha amanhã? Essa é boa...
- Não se surpreenda, se eu não vier mesmo.
- Tá certo. Vem cá... Pode me dar uma carona até em casa hoje? Meu carro está na oficina.
- Claro! Vem aqui pra sala dos professores depois da aula. O Lacerda disse que queria conversar comigo hoje depois da aula. Deve ser rápido. E aí a gente vai.
- Conversar o que com o Lacerda?
- Ele disse que era surpresa. Vamos. A gente vai acabar perdendo o horário da aula.
Isso foi perto das dez horas da manhã. O resto da manhã correu bem e, ao meio dia e meia, voltei para a sala dos professores, como combinara com o Tiago. Cheguei lá e, em cinco minutos, fui chamado pelo Lacerda para a sala da diretoria. Conversamos por mais ou menos meia hora e, depois, fui almoçar com o Tiago. Conversamos um bom bocado na hora do almoço, voltamos para o colégio para uma reunião de professores com o diretor e saímos do colégio no mesmo horário de ontem, em torno de quatro horas da tarde.
- Cara... Eu quero ver o que você vai fazer se o seu carrão quebrar.
- Por quê?
- Porque o seu esportivozinho só tem motor! Não tem portamalas, só entram duas pessoas nele...
- É como eu costumo dizer; esse é um carro pra ter, não pra usar.
- Sei, sei...
Saí do estacionamento sem pressa, como de costume. Virei à direita ao sair, peguei a rua e...
- Aí atrás, Tiago.
- O quê?
- A loura do conversível vermelho.
Tiago espiou pelo retrovisor direito e...
- Rapaz... Que mulherão, heim?
- Eu disse.
- E ela vai te matar hoje, é?
- É o que ela disse que tem que fazer.
- Ela não vai.
- Como assim?
- Ela não vai te matar.
- Como assim, Tiago?
- Se ela fosse te matar mesmo, teria feito isso ontem.
- Tá, tá... Sei...
- Aposto o teu ingresso pro forró hoje à noite.
- Ah, é?
- Se você for hoje à noite, eu pago o seu ingresso.
- E se eu aparecer só amanhã de manhã?
Parei o carro em frente ao prédio do Tiago e ele respondeu antes de sair:
- Se aparecer vivo, o seu ingresso pro forró na semana que vem está garantido com open bar, porque eu tenho certeza de que, se você não aparecer hoje e estiver vivo amanhã, é porque ganhou a modelo.
- Corta essa, doidão!
- É sério!
- Tá, tá, Tiago, tá.
- Obrigado pela carona, garotão. Até mais - ele saiu do carro e fechou a porta.
- Com open bar, heim?
Tiago fez um sinal positivo com a mão e eu saí. Ela ainda me seguia de perto. Saí da quadra acelerando fundo; queria testar se essa loura era mesmo capaz de fazer o que disse que faria - ou coisa assim. Saí cidade afora acelerando como se estivesse participando de uma corrida. Ela me acompanhou bem durante uns dois minutos e, depois, sumiu do meu retrovisor sem deixar pistas. Finalmente consegui despistá-la. Embora agora eu pudesse ir para casa sossegado por não estar mais sendo seguido, resolvi passar na padaria para comprar - sou doido por eles - uns doces. Fui sem pressa, comi alguns doces, deixei outros para quando chegasse em casa e resolvi que era hora de voltar para casa, tomar um banho e trocar de roupa. Eu não queria chegar tarde para o forró.
Cheguei ao meu prédio, estacionei o carro, saí, travei as portas, subi, coloquei a chave na fechadura e... Como assim? Eu jurava ter deixado a porta destravada antes de sair de casa. "Já sei... Ela deve ter chegado antes de mim e está preparando uma armadilha. Essa musiquinha tranquila no meu aparelho de som..." Entrei.
- Quer dizer, então, que tem a chave do meu apartamento?
- Pode apostar que não é só a chave - ela disse. Apesar de não a ter visto, notei que ela sorria enquanto falava.
Passei pela sala, para o meu quarto - não é possível que ela escondeu a chave da porta do meu quarto - , peguei uma muda de roupa no armário e fui tomar banho. Tomei banho sem pressa - pra que ter pressa de ir ao encontro de uma assassina de aluguel, não é mesmo? - e resolvi fazer a barba. Vesti-me da metade para baixo e, enquanto fazia a barba, percebi que ela estava cozinhando alguma coisa. O barulho de comida fritando na frigideira, o cheirinho de carne, pão e temperos pela casa... "Que diabos essa menina está aprontando?" O barulho de fritura logo parou e deu lugar a um - o meu?! - violão acompanhando a música que tocava.
- Você é mesmo incrível. Desfila, posa, persegue, mata e ainda cozinha e toca violão? - disse a caminho da sala, enquanto vestia minha camiseta.
- Você também deve fazer essas coisas, exceto desfilar e posar.
- Engraçadinha.
- Não é menosprezo. Você é bonito, mas não é modelo, certo?
- Certo.
- E persegue, mata, cozinha e toca violão. Aliás, além do violão, toca guitarra.
- Viu minhas guitarras, então.
- Vi. E descobri que uma delas tem o meu nome. Gosta dele?
- Adoro - eu disse sorrindo. Decidido a testá-la, falei: - Agora vamos. Combinei de ir dançar forró com uns amigos. Vai ser ótimo tê-la como companhia.
- Por que não ter a minha companhia e só ela, por enquanto? - ela perguntou, sacando a arma e apontando para o meu rosto. Ela estava em pé no meio da sala e eu apenas longe o bastante para que ela não encostasse sua arma em mim estando com os braços esticados.
- Essa pose não me assusta mais, Bela.
- Ah, não? Que tal com o dedo no gatilho?
- Você é uma graça, sabia? - falei abaixando a arma dela e olhando para a mesa da sala. Havia duas taças de vinho cheias pela metade. Olhei para ela de novo tentando fechar a cara. - Você abriu o meu vinho?! Isso é um vinho caro, sabia?
- Eu sabia. Por isso mesmo abri. Achei que era uma ocasião especial.
- Então também não sabe que eu não bebo - eu disse já sorrindo de novo.
- Não bebe?
- Ah, Bela! Como conseguiu chegar até mim sabendo o pouco que sabe?
- Bem... - ela procurou uma resposta por alguns segundos, deixou a pistola em cima da mesa e... - Vou buscar o nosso jantar.
- Preparou um jantar pra dois? Você é um amor!
Ela voltou da cozinha com um prato em cada mão, entregou-me um deles, sentou-se no sofá e começou a comer.
- De quem ganhou o seu brinquedo?
- Qual deles?
- A pistola no portaluvas do seu carro.
- Ah, sim. Meu irmão me deu. Em parte para me parabenizar pela conclusão do curso de tiro e em parte para para me compensar pelo presente que eu dei a ele quando ele entrou para a polícia.
- E que presente foi?
- Uma Heckler & Koch igual á que ele me deu.
- Você gosta de presentes caros, heim? Os seus carros, o presente do seu irmão, o seu vinho, que, por sinal, está uma delícia...
- Eu estou aqui me perguntando: de quantas maneiras diferentes você poderia ter me matado até agora? E, mesmo assim, não me matou. Poderia ter sabotado meus carros, atirado em mim, explodido o meu apartamento comigo dentro com o gás da cozinha, feito alguma arapuca com o meu chuveiro e me matar eletrocutado com ele, envenado esse pão delicioso...
- O efeito de um veneno no pão ainda viria.
- É. Mas ele não vem.
- Ah, não?
- Não. Senão, você não me teria ameaçado com a pistola de novo.
- Você é esperto. É um menino, mas é muito esperto.
- Menino? Eu? Quantos anos acha que eu tenho?
- Eu sei que você tem vinte e cinco.
- E quantos anos você tem? Com essa carinha de anjo, não sei se tem vinte.
- Vinte e três.
- E mata por dinheiro há quanto tempo?
- Olha... Se vai me interrogar... - interrompi-a pegando meu violão e começando uma música. Comecei, parei no meio, desliguei o aparelho de som e continuei a tocar.
- Você não canta? - ela perguntou.
- Canto.
- E por que não solta essa voz?
- Ah... Não sei se você gostaria disso - deixei o violão no sofá e fui para a varanda. - A noite hoje está tão bonita, não é?
- Está - ela já estava ao meu lado, debruçada sobre o parapeito.
- Como entrou pra essa vida de assassina de aluguel?
- É uma... - hesitou. - ... longa história.
- Conte-me. Estou disposto a ouvir. Tenho a noite toda.
Curioso foi notar que ela deixou escapar uma lágrima de cada olho e, rapidamente as enxugou antes de me perguntar com um claro ar de reprovação.
- Por que quer tanto saber?
- Porque não cabe na minha cabeça a ideia de uma garota linda como você largar a carreira promissora de modelo que tinha para fazer um trabalho sujo desses.
- Eu nunca matei ninguém na minha vida! Você é o primeiro desse serviço sujo.
- Então não tem sangue em você. Não desse jeito.
- Não, André - ela abaixou a cabeça e enxugou as lágrimas. - Desculpa. Dé. Ainda não.
- Ah... "Ainda" não? Se eu sou o primeiro, você nem deve ter largado a carreira de modelo ainda.
- Para com isso! - não eram mais só lágrimas, era um verdadeiro choro. Pus sua franja para trás de suas orelhas, tirei suas mãos de seu rosto e, enquanto enxugava suas lágrimas...
- Não faça isso. Você é muito novinha. Não devia fazer esse tipo de coisa. Deixaria-a traumatizada pro resto da vida.
- Não sei - hesitou e mudou de assunto. - Está frio aqui fora.
Abracei-a. Não, enrolei-a nos meus braços. Ela parecia um bebê desamparado. Encostou a cabeça no meu peito, as mãos juntas entre o meu peito e o dela. Suspirou. "Que será que essa menina tem? Por que tenta fazer isso?"
- Vai pra casa, menina.
- Hm-hm - respondeu negativamente.
- Desiste desse serviço, desiste de me matar, vai pra casa e, domingo, você não vai ter mais quem cobre o seu serviço de você.
- Não, André.
- Vai embora, antes que eu faça alguma besteira.
Ela olhou fundo dentro dos meus olhos. Um olhar daqueles que fazem um bruto cair de joelhos.
- Não, André! Já disse que não!
Segurei o seu rosto entre as minhas mãos com vontade e beijei-lhe a boca. Não sei se por pura brincadeira ou porque estivesse apaixonado pela figura da assassina de coração mole. Pensei que ela fosse querer sair de perto de mim, correr para a sala, pegar a pistola e esvaziar o pente na minha testa, mas não. Rendeu-se. E parecia que não queria outra coisa a não ser aquilo. Depois de um longo beijo e de me abraçar, ela perguntou:
- Por que faz isso?
- Porque sim.
- Isso não é resposta, Dé.
- Então é porque você tem o coração mole e eu acho um desperdício você deixar a sua vida tomar esse rumo horrível.
- Você fala que é tão horrível matar alguém... Por que quer matar o chefe da GREVE?
- Eu tenho contas a acertar com ele.
- Sei...
- Mas isso é história pra outro dia. Vai pra casa tratar de coisas menos importantes que o seu "serviço".
Ela foi para a sala, pegou a bolsa em cima do sofá, pegou a pistola, guardou-a dentro da bolsa e virou-se.
- Eu venho amanhã de novo e, juro, você não escapa.
- Se você vier amanhã, você é quem não escapa.
- Escapar de quê, professorzinho?
- Você não vai conseguir fazer isso. Você tem o coração mole. Entrou na minha casa pra me matar e acabou nos meus braços. Ficou aqui em casa até agora, mas não foi pra me matar, eu tenho certeza disso. Se voltar amanhã... - hesitei. - Quanto mais vezes voltar, mais difícil ficará pra você. Acredite.
Ela andou até a porta e eu a acompanhei de perto. Abri a porta para ela, ela passou para o lado de fora e disse:
- Eu volto amanhã. E...
- "Eu te pego, professorzinho."
- É.
- Se voltar amanhã...
- O quê? Já disse isso duas vezes. Se eu voltar amanhã...?
- Vai ser mais difícil que hoje.
Ela chamou o elevador, voltou para me beijar e, ao ouvir o elevador chegando, disse...
- Tchau. Amanhã eu te mato.
- Não. Amanhã EU te mato.
Ela entrou no elevador e, de lá de dentro, antes de deixar a porta fechar, com uma das mãos me mandou um beijo e, com a outra, fez uma arminha disparando contra mim. "Droga... Perdi o horário do forró. Acho que não vou mais." Retribuí o gesto integralmente.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sonhar e... Sorrir? Vol. 3

Eu matei uma assassina - Parte 1
- E aí, André, como foram as aulas hoje?
- Normaizinhas. Parece que a molecada tava com pulga na cueca hoje de manhã, mas foi divertido.
- É sempre divertido pra você, né? Tudo é festa mesmo?
- Ah! Em sala de aula eu me divirto com tudo. Até com os bagunceiros.
- Só você pra querer dar aula pra terceiro ano do ensino médio.
- Olha só! E você faz o quê?
Isso aconteceu já bem depois do meio dia. Já passava, aliás, das quatro da tarde de um dia em que trabalhei a manhã inteira no colégio, almocei por lá e houve conselho de classe à tarde. Pela minha cabeça não passava mais que ir para casa, pegar o outro carro e ir ao supermercado fazer umas compras. Uma bela tarde de quarta com um sol dourado lá fora.
- André, vamos a uma boate mais tarde? Vai rolar um forró bacana hoje à noite.
- Ô, Tiago, hoje não vou. Desculpa.
- Ora... Vamos, rapaz! Você é solteiro! Vinte e cinco anos! Cheio de energia! Vai se divertir.
- Cara, eu estou meio cansado hoje. Vou pra casa trocar de carro, fazer compras e voltar pra casa pra descansar.
- Que é isso, homem! Fazer compras e descansar? Que diabo de solteirão é você?
- Ah! Responde essa, vai! Gosto tanto de ouvir!
- Vinte e cinco anos, professor de sucessíssimo, anda de carro esporte... e está dispensando um forró? Logo você dispensando forró?
- É... Mas se rolar outro amanhã, eu vou. Prometo.
- Vê lá, heim? Até amanhã!
- Até amanhã, Tiago.
Bem como o Tiago disse: entrei no meu carrinho esporte, dei a partida, manobrei pelo estacionamento do colégio - que estava vazio para uma quarta à tarde e saí sem pressa. Depois de um tempo, percebi que estava sendo seguido. Há quanto tempo esse - outro - esportivo está me seguindo? Não deve ser nada.
Parei num semáforo e percebi que não só era um esportivo como era um conversível. E vermelho. Com uma bela loura ao volante. E só ela dentro do carro. "Deixa de ser besta, André. Pessoas não seguem outras pessoas no trânsito por aí. Não numa quarta à tarde." O sinal abriu, virei à direita e segui. E lá vem o conversível vermelho. Será que o meu cupê amarelo chama tanta atenção assim? Convenhamos que não é muito mais gritante que um conversível vermelho.
Depois de mais uns cinco minutos de volante, esqueci-me de que estava sendo seguido. Entrei na garagem do prédio, estacionei, saí do carro, subi para o pavimento térreo para pegar o outro carro e ir fazer compras e... Hã? Que faz a loura do conversível vermelho - com ele - na frente do meu carro? Está bloqueando a minha saída. Antes mesmo de abrir o carro:
- Posso ajudar em alguma coisa, moça?
Ela tirou uma pistola de dentro da jaqueta de couro e apontou para mim.
- Acho que não.
- Ah! Entendi. Você veio me matar, não é? Deixe para mais tarde um pouco. Eu preciso fazer compras.
- Não vai precisar delas - ela disse com um tom sério e uma cara mais ainda.
- Ah, eu vou. Eu sou solteiro, tenho vinte e cinco anos e me recuso a morrer com um tiro sem ter comido nada antes - destravei o meu carro e fui entrando. - Entra aí. Vamos comigo. Mais tarde você me mata.
A loura fez uma cara de quem achou tudo aquilo muito estranho - e qualquer um teria achado. Estacionou o carro ao lado do meu, entrou e saímos.
- Por que você quer me matar?
- Porque você sabe demais.
- Ah, claro! Eu sou professor, sabe? Eu preciso saber o que eu sei pra dar aula.
- Não, André. Não é isso.
- Então sabe o meu nome? Não me surpreende. Sabe onde trabalho, onde moro, que tenho dois carros... Que mais você sabe?
- Que você conhece a GREVE.
- Ahn... A GREVE. Fala do grupo de ratos que faz tráfico ilegal de armas cuja sede é aqui na minha quadra e, teoricamente, ninguém sabe a respeito?
- Exatamente.
- E por que esse nomezinho ridículo? Não tinha um piorzinho um bocado para um grupo de traficantes de armas?
- Como?! - ela me olhou com um ar de não sei se susto ou reprovação.
- É. Que nome ridículo!
- Bom... - ela se ajeitou no banco do passageiro. Se você sabe o que é a GREVE, sabe quem me mandou, suponho.
- Sei. E se você sabe quem sou, onde trabalho, onde moro e que tenho dois carros, também sabe que vou matar quem te mandou, certo?
- Ahahahaha! - ela riu descontroladamente.
- Não ria. Ele não passa de domingo.
- Como você pretende matá-lo?
- Vai ser fácil. Como ele está instalado num apartamento num prédio na minha quadra como um morador comum, não há segurança no prédio que me segure. Ele não instalaria nenhum sistema de segurança superavançado porque isso chamaria a atenção de outros traficantes tão grandes e nojentos quanto ele. Sem falar que isso atrairia a atenção da polícia, uma vez que os porteiros do prédio saberiam que no apartamento tal há um sistema de segurança assim assado.
- É? E como pretende entrar?
- É segredo. Mas ele não vai ver o nascer o sol da próxima segunda. Domingo à noite ele vai dormir e não vai acordar mais.
- Gostei de você.
Parei no supermercado e ela ficou dentro do carro enquanto eu fui rapidamente fazer as compras de que precisava. Propositadamente deixei-a dentro do carro para que fuçasse coisas como o meu portamalas - e não achasse mais que livros e cadernos novos e velhos - e meu portaluvas - e achasse um portadiscos e, quem diria, uma pistola 9mm automática. Quando cheguei de novo ao carro, surpreendi-a com minha pistola na mão.
- Ei! Esse brinquedo é meu. Ponha no lugar já - falei sério e incontestavelmente imperativo.
- Tá bom, tá bom, pronto - ela pôs de volta a pistola no portaluvas num gesto rápido e um pouco atrapalhado.
- Eu tenho ciúme desse meu brinquedo. Ganhei de presente. - eu disse depois de colocar as compras no portamalas e entrar no carro de novo.
- O que faz um professor de segundo grau com uma Heckler & Koch no portaluvas?
- Quase a mesma coisa que uma modelo com uma 9mm no bolso da jaqueta.
- Ei! Como sabe?
- Ah... Você não me engana; loura, olhos azuis, um rosto lindo, quase 1,80m de altura, magrinha... Você é modelo nas horas vagas ou já foi, num passado não muito distante.
- É verdade... Já fui modelo, sim.
- Eu sabia.
- Que mais você sabe a meu respeito?
- Nada, eu acho. Nem mesmo o seu nome.
- Não seja por isso. Isabela Müller.
- E você? O que sabe a meu respeito, Bela?
- Eu...
- Não se importa que eu a chame de Bela, né?
- N... Não.
- Diga.
- Sei que você dá aulas de português e de inglês naquele colégio, que mora aqui, anda num cupê esportivo amarelo e tem um sedã verde escuro "de reserva". Mora sozinho num apartamento pequeno de três quartos por que quer, e não por falta de dinheiro.
- Que mais?
- Que mais eu deveria saber?
- Quem te mandou deveria tê-la informado de que eu sou um sujeito um pouco perigoso até quando estou desarmado.
- Como assim?
- Eu sou karateca e kickboxer.
- Impossível. Eu teria sabido, se essas informações fossem relevantes.
- Não, não teria sabido. As informações não são relevantes porque não sou faixa preta. Mas elas deveriam ser porque não sou faixa preta por não ter querido fazer os últimos exames. Eu teria de tirar porte de armas para isso.
- Bonito você, heim? Quer dizer que tem uma Heckler & Koch no portaluvas e não tem porte de armas?
- Eu não disse que não tenho. Disse que, pra pegar a faixa preta, teria de tirar. Isso poderia me tornar conhecido para uma ruma de traficantes de armas nojentos. Ah! Para a GREVE.
- Fala deles com tanto desprezo quanto falaria de uma barata.
- Mas eles são desprezíveis. Muito desprezíveis. E têm um nome ridículo. Aliás, dá pena saber que você trabalha pra eles, sabia? Pelo amor de Deus!
- Quê?!
- Uma assassina de aluguel tão competente deveria escolher melhor para quem trabalhar. Ou vai me dizer que aceitou o serviço porque eles pagam bem.
- Ehr... Eu...
- Imaginei.
Isabela falou mais coisas a seu próprio respeito no caminho de volta para a minha casa. Falou tanto que não deu tempo de falar tudo só no caminho. Ficamos dentro do meu carro, no estacionamento do prédio, por mais de hora, enquanto ela dizia coisas como o quanto teria gostado de seguir a carreira de modelo, por exemplo. Quando chegou a esse assunto, começou a chorar, falou mais algumas coisas, pediu desculpa pela cena e...
- Vai pra casa, Bela. Hoje não vai ser um bom dia pra você matar ninguém. Não conheço um só bom assassino de aluguel de sangue quente.
- Mas...
- Tenho certeza de que o verme não se zanga se você demorar um diazinho a mais do que o esperado.
- É que...
- Deixe disso. Vai acabar tendo um ataque de nervos, se me matar hoje. Volta amanhã. Já sabe onde é a minha casa, onde trabalho, que carros tenho... Vai ser fácil. Volta pra casa, descansa e amanhã você me mata.
- Obrigada, Dé.
- De n...
- Não se importa que eu o chame pelo apelido, né?
- Não - corei.
- Então até amanhã.
Saímos de dentro do meu carro. Enquanto eu abria e descarregava o meu portamalas ela entrou no conversível vermelho e arriou a capota. Fechei o portamalas e ela disse:
- Não pense que amanhã será tão fácil pra você quanto foi hoje.
- Não pense que amanhã será tão difícil pra você quanto foi hoje - eu disse com um sorriso malicioso no rosto.
- O que foi tão difícil?
- Descubra amanhã. Você precisa descansar um pouco e eu também.
- Eu te pego, professorzinho.
- Estou esperando. Beijo e até amanhã.
- Até amanhã.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O sentido dos sentidos

Não sei se acontece com vocês, se acontece com todos nem se é normal, mas hoje eu reparei uma coisa que achei bem esquisita. Levanta a mão aí quem um dia sentiu que os sentidos estavam todos aguçados - tá, não precisa levantar a mão. Vai ser engraçado alguém te ver na frente do computador com o braço erguido. Então...
Eu já reparei que toda manhã, quando acordo, a minha audição está absurdamente aguçada. Não só de manhã, na verdade. Depois daquele cochilo que a gente tira à tarde - pra matar a "depressão pós-almoço" - até mesmo o barulho da água do chuveiro caindo no chão torna-se ensurdecedor. Tudo bem, até aí, pra mim, é normal. O fato é que não é só isso.
Hoje de manhã, quando estava chegando no trabalho, comecei a perceber essa mudança estranha. Deixei o carro com o manobrista e fui andando até a portaria do prédio - não deve dar mais que cem metros de caminhada. Nesses mínimos cem metros eu senti - juro que contei - quinze cheiros diferentes. E antes tivessem sido um cheiro de pipoca, outro de massa cozinhando, outro de cocô de cavalo - que são cheiros fortes e acho que qualquer um reconhece quando sente. Desses cheiros todos, posso dizer genericamente, que quatro eram cheiros de coisas podres, cinco eram cheiros de rua - fumaças, asfalto e pneu queimado - três de produtos de limpeza e três de perfumes.
Segundo assalto. Enfiei a mão no bolso da calça para pegar as chaves da porta do escritório, que ficam no mesmo molho de chaves em que levo as de casa. Pois pus a mão no bolso e, por mais incrível que me parecesse, reconheci a chave que fica imediatamente abaixo da maçaneta pela textura da cabeça da própria chave - seria fácil reconhecer a outra, pois é uma chave tetra. Como fiz isso? Nem eu sei. Enquanto destrancava a porta, percebi as inúmeras irregularidadezinhas dos meus lábios - que estavam ressecados - e de dentro da minha boca - às vezes, por nervosismo, mordo a pelezinha de dentro dela. São coisas que não costumo notar com facilidade e muito menos com a mesma precisão com que fiz hoje de manhã.
Terceiro assalto. Entrei no escritório, liguei o computador, o condicionador de ar e saí de novo para comprar o jornal do dia na banca de revistas ali perto. Tranquei a porta, peguei o elevador e... Que gosto é esse? Ah... A manteiga de cacau que eu passei assim que entrei no escritório. Nunca tinha reparado que ela não tem gosto do que quer que o rótulo diga que ela tenha. Na verdade, nunca tinha reparado nem que ela tem gosto, só que deixa a boca meio melequenta - do mesmo jeito que fazem os brilhos labiais das moças. Enfim...
E não parou por aí. Quem me conhece sabe que tenho hipermetropia, astigmatismo e estrabismo. Então, o último sentido que, pela lógica, poderia ficar aguçado por qualquer razão, é a minha visão. Mas mesmo ela teve lá suas alterações. Como caminhei até a banca de revista com a cabeça baixa, não percebi muita coisa diferente, mas eu não sabia que o asfalto tinha tanto mais que só cinza, branco e amarelo. Cheguei à banca, comprei o jornal e voltei. Desta vez, com a cabeça bem erguida. E fiquei impressionado com o número de cores que vi e percebi em outras cores enquanto voltava ao escritório. Não sabia que a cor prata da Fiat tinha o espectro azul e a prata da Chevrolet tinha o espectro cinza. "Espera, André, que coisa mais esquisita em que reparar." Mas é verdade. Dois Fiat Palio, dois Fiat Uno e um Fiat Marea prateados entre a banca de revistas e a portaria do prédio do escritório. A prata da Fiat tem, realmente, um fundo azul. Três Chevrolet Corsa, uma Chevrolet Meriva, dois Chevrolet Astra, um Chevrolet Vectra - e todos estes prateados. Engraçado, a prata da Chevrolet é, realmente, meio acinzentada.
Agora... Por que diabos isso acontece? Alguma razão especial? Algum palpite? Se a resposta pra essas perguntas for "Não sei", "Não sei" e "Não", respectivamente... Bom... Bem-vindo ao Answerless.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Pra começar bem...

E por que não começar o ano falando de Letras e afins? Afinal de contas, não é essa a minha área de trabalho e estudo? Acho que, de vez em quando, esse tipo de assunto num blog é bem-vindo - será que eu usei direito esse hífen?
--
O novo acordo ortográfico - opinião pessoal
Eis um assunto que há tempos eu penso em colocar em discussão aqui no Answerless. Um assunto que, diga-se de passagem, tem-me dado dor de cabeça desde que tomei conhecimento - e isso já faz um bom tempo. Qual é a opinião de vocês, leitores, a respeito desse novo acordo ortográfico?
Tenho salvo no meu computador um endereço eletrônico que traz, descritas e explicadas, as novas regras de ortografia da língua portuguesa. Depois de, finalmente, aceitar que as mudanças já foram feitas, aprovadas, que já estão em vigor e depois de ler e reler aquele troço sei lá quantas vezes eu me pergunto: pa-ra-quê?
Peço desculpas antecipadas por escrever "à moda antiga" daqui até o fim da postagem. Logo vocês entenderão por que.
Comecemos pelo hífen. Finalmente o uso desse tracinho enjoado ficou mais simples. Na minha cabecinha de vento as regras para o uso do hífen ganharam mais lógica. Contudo, devo dizer que foi a única mudança que achei positiva - entre as tantas feitas na nossa bela língua. Atentemos agora para os "podres".
Por exemplo: o que passa pela cabeça de uma pessoa quando pensa em sumir com o acento de metade das paroxítonas e com acentos diferenciais? Pelo amor de Cristo! Não! Se "tem" e "têm" continuam diferentes na escrita e as pessoas sabem que o primeiro é singular e o segundo é plural, por que diabos sumir com o acento diferencial de "pára"? Não é ele, afinal de contas, que diferencia uma preposição de um verbo? Qual é, exatamente a utilidade disso?
Outro exemplo: por que tirar o acento de palavras como "paranoia"? Não é paranóia demais? Seguindo a mesma mecânica que faz com que uma poça seja uma "pôça" e não uma "póça", daqui a não muitos anos a nossa paranóia vai virar paranôia.
Quem quiser discordar - com ou sem motivo - , que discorde. Não tem problema. Mas há mais para discutir. Uma mudança de derrubar o queixo: o sumiço do trema. Tudo bem, tudo bem. Perdi as contas de quantas pessoas já ouvi falar que acham um saco colocar aqueles dois pontinhos nojentos em cima do "u". Contudo, a maioria delas acha um saco ter de colocar acento em um monte de palavras. Só que - pelo amor de Deus! - ninguém dessas pessoas já pensou que, fatalmente, daqui duas ou três gerações, calculo eu - leiam como leriam até 31/12/2008, por favor - , a lingüiça vai virar linguiça, ninguém mais vai freqüentar lugar nenhum - e sim frequentar - e muitas pessoas não aguentarão muitas coisas que enfrentam no seu dia-a-dia?
Certo, certo. Vá lá. Regras são regras e elas foram feitas para ser seguidas. Uns acentos a menos, uns tremas a menos, uns hífens mais assim e menos assado... Mas a mudança "suprema", aquela que não cabe na minha cabecinha, aquela que não me desce pela goela nem que empurrem, é a adoção de K, W e Y no nosso alfabeto.
Ai...
Para quê? Pergunto a vocês, leitores, e a mim mesmo: pa-ra-que, meu Deus do céu? Como professor de português, corretor de imóveis - que está sempre no meio de pessoas que usam palavras difíceis da administração, do direito e de outros ramos - e como - claro! - um rapaz de vinte e dois anos de idade, eu já não agüentava - quer dizer, já não aguentava - ouvir certas coisas. Quando me disseram, certa vez, que eu poderia fazer um leasing para comprar um carro novo, quase tive um enfarto. Leasing não quer dizer financiamento? Mais ou menos. Uma vez uma amiga minha disse que leasing quer dizer arrendamento mercantil de não sei das quantas - era um nome muito comprido e eu não lembro agora. Mas ainda que seja um arrendamento mercantil de patati caixa de fósforo, pra que diabos usar uma palavra que nada tem a ver com as nossas origens?
Outra situação. Um amigo foi para uma entrevista de emprego e me contou que o possível futuro chefe gostou muito dele e disse que pelo seu know how... Pára! Quer dizer, para! Não era muito melhor - e muito mais bonito - dizer que "... pelo seu conhecimento..."? Eu confesso que só não vou tocar em shopping porque eu, no momento, não sei como substituir essa palavra por uma que seja puramente portuguesa. Mas continuo achando que, para toda palavra, expressão ou termo que usemos em inglês, francês ou qualquer outra língua, existe uma palavra, expressão ou termo equivalente no portugês.
Eu, caríssimos leitores, detestei a tal reforma ortográfica. Ressalto, mais uma vez, que todo esse texto é apenas uma opinião pessoal. Não quero que ninguém se ofenda com as minhas palavras aqui. Mas ainda há mais um ponto em que tocar.
Na primeira vez em que ouvi a respeito de reforma da língua portuguesa, acordo ortográfico, coisa e tal, o argumento era que isso serviria para unificar a língua de todos os países falantes de português. E eu torno a perguntar: pa-ra-quê?
Eu já quase fui esbofeteado em certas discussões sobre povos, culturas, línguas e afins. E tais - quase - bofetadas vieram seguidas de "língua é cultura", "cultura é feita de língua", "a língua de um povo é a sua identidade e ela faz dele um povo único". E agora eu me pergunto: cadê esse pessoal que fala essas coisas? Não tinha ninguém que pensasse dessa forma em meio às pessoas que aprovariam ou não o novo acordo ortográfico? Nunca na vida discordei de que língua é cultura e identidade. Jamais. Muito pelo contrário, concordo plenamente com essa idéia - quer dizer, ideia. Na verdade, é um fato e não só uma ideia. Agora que todos os povos que falam língua portuguesa têm as mesmas regras, a identidade deles - inclusive a nossa, brasileiros - , fica abalada? Alterada? Ou some de vez?
Não, não some. Um povo é feito de cultura e a cultura é feita de mais que só a língua. Contudo, uma marca da identidade de todos os povos que falam o português acaba de sumir. Ou, por acaso, achais que não, caríssimos leitores? Não deixem de expressar a vossa opinião pessoal num comentário nessa postagem, certo?
Beijos e abraços a todos!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Lobão

Já dizia ele: "Não dá para controlar/ Não dá!/ Não dá pra programar/ Eu ligo o rádio e bláblá!/ Bláblábláblá, eu te amo". Pior é que não dá mesmo.
Dia de shopping com o papai e as irmãs, cinema, trocar uma camisa que não coube... Dá pra dizer que é um dominguinho normal e feliz pra qualquer um. Mas sabe quando você, de repente, fica meio cabisbaixo, menho nhé, meio "nem tou a fim"?
Não é nada. E é tudo. Os dois ao mesmo tempo. Nessas horas a gente lembra que tá com saudade da namorada que viajou, que tá completando meses de namoro com ela - só que longe dela - , nessas horas a gente se lembra de uma pessoa querida com quem não fala mais - mas adoraria ainda falar com ela - e mais um punhado de coisas pra encher a cabeça da gente.
Mas por quê? Pra quê? Por que e pra que diabos a gente fica nessa cabisbaixice? Não serve pra nada, dá deprê, dá choro, dá cansaço que vem do nada, vontade de afundar a cabeça no travesseiro e não sair mais de lá.
E aí a gente lembra que trabalha amanhã. Mas isso aí nem...
E aí a gente torna a pensar na namorada que tá longe e na pessoa querida com quem não fala mais. E vêm lembranças de todo jeito nas nossas cabeças. Na verdade, não de todo jeito. Quando você tá jantando com a sua mãe e vendo ela espetar uns cacos de salpicão com o garfo ao som de sei-lá-o-quê na Antena 1 que diz "I love you" você lembra só das coisas boas. E fica querendo voltar a ver aquelas pessoas queridas - a namorada que está longe e aquela com quem não se fala mais. Aí eu me lembrei do Lobão dizendo que não dá pra controlar. É engraçado isso, né?
Depois a gente vai pro computador, publica uma bobagem no blog ouvindo música deprê enquanto digita e, daí a umas horas, vai dormir.
Que amanhã é outro dia e tem que trabalhar de manhã cedo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Anyway (à Carolina Genú Nakazato)

Rising from the forgotten,
I tell you no lies,
Here come my words
Rising from the forbidden,
I tell you no lies,
Here comes my look
Searching for the untouched
Words I didn't tell you
Words you didn't hear
Searching for the unknown
Only you could tell
Your answers, maybe

Into the heart of darkness lies my hope
But there is, still, something that remains
Into the heart of darkness lies my hope
To see you again

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway

There should have been a fusion
Between love and hate
They should become one
But I just can't forget
Our happiest days
They just haven't gone

Into the heart of darkness lies my love
Shouldn't I find it all too strange?
Into the heart of darkness lies my hope
To see you again

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway

Never could I understand
Never could I comprehend
What took you from my hands
How it all turned to sand

You could have come to me
I could have come to you
You could have spoken to me
I could have spoken to you
You could have understood me
I could have understood you
But you don't want to see me
And still I want to see you

Into the heart of darkness lies my love
Buried deep into my chest
Out of the heart of darkness I'll find us both
And maybe some rest

I cannot wait to look in your eyes any day
I cannot wait to see your face
I cannot say - whatever I have in my head
I cannot say it just anyway


--

Anyway (Qualquer Jeito - Tradução)

Levantando-se do esquecido,
Não te digo mentiras,
Lá vêm minhas palavras
Levantando-se do proibido,
Não te digo mentiras,
Lá vem meu olhar
Procurando o intocado
Palavras que eu não te disse
Palavras que você não ouviu
Procurando o desconhecido
Só você poderia dizer
Suas respostas, talvez

Dentro do coração das trevas jaz minha esperança
Mas há, ainda, algo que resta
Dentro do coração das trevas jaz minha esperança
De te ver de novo

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para ver o seu rosto
Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

Deveria ter havido uma fusão
Entre o amor e o ódio
Eles deveriam virar um só
Mas simplesmente não consigo esquecer
Nossos dias mais felizes
Eles simplesmente não se foram

Dentro do coração das trevas jaz o meu amor
Eu não deveria achar isso tudo muito estranho?
Dentro do coração das trevas jaz a minha esperança
De te ver de novo

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para te ver de novo

Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

Nunca pude entender
Nunca pude compreender
O que te tirou das minhas mãos
Como isso tudo virou areia

Você poderia ter vindo a mim
Eu poderia ter ido a você
Você poderia ter falado comigo
Eu poderia ter falado com você
Você poderia ter me entendido
Eu poderia ter entendido você
Mas você não quer me ver
E eu ainda quero ver você

Dentro do coração das trevas jaz o meu amor
Enterrado fundo dentro do meu peito
Fora do coração das trevas hei de nos encontrar
E, talvez, algum descanso

Não posso esperar para olhar nos seus olhos qualquer dia
Não posso esperar para ver o seu rosto
Não posso dizer - que quer que eu tenha na minha cabeça
Não posso dizer simplesmente de qualquer jeito

domingo, 7 de dezembro de 2008

Gê, Eneú e a Zica (por Isabela Pinheiro)

- Achei que você fosse demorar bem mais pra chegar.
- Não... Demorar mais do que eu já demorei seria muita perda de tempo. Faz muito tempo desde que eu saí de lá.
- Onde é mesmo que você estava?
- Ah, é verdade. Não te contei. Na casa do Eneú.
- Você demorou muito lá. O que foi?
- Pois é. Até agora eu não sei explicar direito. Não sei nem por onde começar. Na verdade, não sei nem se devo.
- Por quê? Você não gostou de ter ficado por lá?
- Eu não sei, pra ser sincera, Zica.
- Eu, heim, Gê... Como não sabe se gostou?
- Sei lá... Às vezes eu acho que passei tempo demais na casa dele. Acho até que esqueci um monte de coisa lá.
- Esqueceu ou deixou de propósito? Você não está com muita cara de quem quis trazer o que levou.
- Eu também não sei. Ainda estou meio perdida. Ele quis me dar umas coisas pra eu trazer, mas também não trouxe.
- Por quê, Gê? Ficou doida?
- Não, sei, Zica! Não sei, não sei, não sei de coisa nenhuma.
- Mas você vai voltar lá pra buscar pelo menos as coisas que ele quis te dar, né? O que era, por falar nisso?
- Ah... Uma almofada.
- Mas não eram "as coisas"?
- É verdade. Mas é uma almofadona em forma de coração com um monte de coisas escritas.
- Tipo o quê?
- Umas palavras soltas. Tipo carinho, respeito, amizade, confiança...
- Coisas que, a essa altura não fa-
- Não fazem sentido nenhum pra mim.
- Tem certeza?
- Ai, Zica! Você fica me dificultando! Já tou meio desnorteada depois de sair de lá e você fica me falando essas coisas! Parece que é de propósito. Eu só sei que...
- Sabe...?
- Nada.
- Fala, Gê.
- Nada, não.
- Fala. Você vai acabar entregando cedo ou tarde. Fala logo.
- Não sei... Eu tenho a estranha sensação de que eu vou ser sempre bem-vinda pro Eneú.
- Pra quem saiu de lá do jeito que você saiu, essa sensação é bem... diferente, né?
- Fazer o quê? Ele passa isso! Eu não sei como, pra ser sincera. Mas eu tenho essa forte impressão de que eu vou sempre ser bem-vinda pra ele.
- Pera um pouco... Deixa eu atender o telefone aqui. Alô?
- Zica?
- Sou eu.
- É o Eneú, tudo bem?
- Oi, moço. Tudo bem, e você?
- É... Mais ou menos. Deixa eu perguntar uma coisa. Você vai encontrar a Gê por esses dias?
- V... Vou... Por quê?
- Pode passar um recado pra ela, por favor?
- Posso, Eneú. O que quer que eu diga?
- É que ela foi embora daqui meio de repente. Eu ia dar uma almofada pra ela, mas nem deu tempo de entregar.
- Hum.
- Diz pra ela, por favor, que, quando ela quiser ela pode pegar. Se ela quiser, eu posso levar pra ela também.
- Tá bom. Pode deixar.
- Brigadão, viu?
- De nada, moço.
- Beijo.
- Beijo. Tchau.
- Tchau.
- Quem era, Zica?
- Era ele.
- O Eneú?
- Ele mesmo.
- O que ele disse?
- Que quando você quiser a almofada, ele te dá e, se você quiser, ele leva ela pra você.
- ...
- Que foi?

Isabela Pinheiro

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Não, não foi abandonado! Vol.2

Meus caríssimos leitores e minhas caríssimas leitoras,

Tudo bem que já faz quase dois meses que não aparece nenhuma postagem nova nesse blog, mas não, ele não foi abandonado - não na teoria. =P~~

Devido a muitas bagunças - no estilo trabalho, estágio, estudos e outras coisas que ocupam o nosso tempo de maneira que não nos deixa escolha senão deixar o tempo ser tomado - o blog ficou um bom tempo parado. Contudo, dentro em breve haverá postagens novas e, quem sabe, outras coisas novas - não perguntem o quê, ainda estou pensando.

Beijos e abraços a todos e até breve!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Escrever...


Só pra variar os assuntos do blog, uma coisinha bem comum. Coisa que muitos de nós fazemos todos os dias e, alguns de nós, fazemos muito. Crônicas, contos, poemas, letras de música, cartas, lembretes, bilhetes, mensagens de celular, e-mail e mais uma pancada de coisa - e por que não, postagens de blog?


Mas tem uma coisa a respeito da qual muitos de nós não nos tocamos. Alguém já parou pra pensar no quanto o simples ato de escrever pode ser perigoso? E não é só a gente pensar em coisas "grandes" que outras pessoas possam ler - tipo algum gênero de confissão no seu caderno secreto ou uma carta pra alguém ou alguma postagem no blog. Qualquer bilhetinho ou mensagenzinha de celular pode ser perigosa.


Agora entendamos aqui o que quer dizer "perigo". "Perigo", especificamente nesta postagem, a gente pode entender como o risco que corremos de entregar alguma coisa de nós no que escrevemos - ou, por acaso, você pensou que escrever fosse algo completamente seguro? Na verdade... Acho que nada daquilo que a gente faz todo dia - no que se refere a coisas que possam envolver outras pessoas de uma forma ou de outra - é completamente seguro. Mas escrever é uma coisa muito especial. Vamos por partes...


Pense em quanta informação pode haver numa mensagenzinha de celular. Daquelas de uma frasezinha só. Tipo: "Fulana, querida, vamos almoçar hoje?" Se a pessoa que te mandou essa mensagem for, por exemplo, o seu irmão, tudo bem. Dá até pra entender, dependendo da personalidade dele, que ele está de bom humor - não é todo irmão que chama uma irmã de querida. Se for aquele amigãããão que é quase "a sua amiga", também pode não querer dizer nada. Mas e se for aquele colega seu de turma com quem você não tem tanta intimidade assim? Dá pra entender que ele está sendo gentil, ou que está de muito bom humor, ou que está dando mole... Ou mais um monte de coisa que pode não ter nada a ver com nada disso.


Agora pensemos em coisas mais profundas um pouco - como uma carta, uma letra de música, um poema ou uma postagem num blog. É praticamente impossível não perceber alguma coisa além da mensagem que o texto passa por si só. Num poema, por exemplo, é possível ver vários e infinitos sentimentos, emoções, opiniões e sensações da pessoa que escreveu - a partir, também, dos sentimentos, emoções, opiniões e sensações que essa pessoa te causou quando você leu. A indiferença, o ódio, o amor, a raiva, o gosto, o desejo, tudo isso sai da sua mão para o texto enquanto você move o lápis ou aperta umas teclas e vai do texto para a pessoa que o lê. De repente, tudo aquilo que podia ter sido secreto passa a ser perfeitamente visível. E, às vezes, tentar esconder alguma coisa enquanto se escreve é mais ou menos como tentar esconder um elefante atrás duma moita de alface.


Escreveu, não leu... Alguém te leu.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sexo (por Ivete Pimenta)

Isso. Nu, cru, obsceno, selvagem, lindo e... orgásmico. Um assunto sobre o qual muitos falam com desenvoltura, outros com uma pseudo-desenvoltura e outros evitam cada um por seus motivos.

E é interessantíssimo notar as diferenças - ora mínimas, ora díspares - entre sexo e sexo. Afinal de contas, quem discorda de que há sexos e sexos? Um não é a mesma coisa que outro.

Nem sempre ele será nu. Às vezes bate aquela vontadezinha sem-vergonha de, como dizem uns, fazer uma rapidinha em lugares aconchegantes como um elevador ou em horas próprias como no meio da tarde no mar. Mas isso é só o sentido literal da palavra. As pessoas vestem o sexo também com aromas afrodisíacos, fantasias, roupas ousadas, banho de espuma, gravatas amarradas nos pulsos, caldas de cereja que esquentam com saliva... E fazem horas e horas de festa - ou sexo? Tudo isso faz com que ele deixe de ser cru também.

Sobre a obscenidade... Ela é uma coisa muito relativa. Há pessoas que não vêem obscenidade nem mesmo naquelas cenas mais vulgares do filme pornô de produção mais barata. No extremo oposto, o ombro feminino exposto é desmedidamente obsceno. Desenhar a linha que separa o que é obsceno do que não é, então, fica difícil. O sexo pode sê-lo ou não - e ser e não ser ao mesmo tempo.

A selvageria é outro conceito relativo. Mas, já dizia um outro, "tudo é relativo". Então... É o seguinte: sexo selvagem não precisa ser aquela coisa com tendências canibais, pré-históricas ou desprovida de qualquer traço de delicadeza. O sexo, por si só, é selvagem; trata-se de um dos instintos mais primitivos do ser humano. Vou deixar a beleza e o orgasmo por conta de vocês, leitoras e leitores.

E há tantas outras coisas a se notar a respeito desse ato tão nu, cru, obceno, selvagem, lindo e orgásmico... Quem discorda de mim quando digo que não é a mesma coisa fazer sexo e fazer amor? Coloquemos isso da seguinte maneira: fazer sexo por fazer sexo é diversão, agitação, uma busca louca pelo prazer. Partir para o que já se conhece para chegar "lá" e - por que não? - explorar alguma coisa nova para saber que gosto tem. É uma verdadeira loucura. Mas fazer amor...

Fazer amor é uma coisa linda. Depois de uma noite completamente entregue ao prazer do amor - ou do sexo com amor, como preferir - , notei uma coisa que achei, ao mesmo tempo, engraçadíssima e deliciosa - mas "deliciosa" tendo a delícia numa direção diferente do "engraçado". Depois que você passa uma noite doida de sexo com, digamos assim, o seu "fuck friend", você sai com aquele cansaçozinho gostoso de quem acabou de passar horas numa brincadeira divertida - e, de fato, foi o que aconteceu.

Só que, depois que você passa uma noite de amor, tudo fica calmo. Você se acalma, o seu par - que não vai ser seu "fuck friend" - , se acalma, a noite fica tranqüila, bate um soninho gostoso e uma sensação torradinha com geléia de amora e suco de laranja... Delícia...

E tudo volta a ser "nervoso" e "tarado" depois que se veste a roupa...

Ivete Pimenta